* Adlla Rijo
Ele me olhava insistentemente como se extasiado ante a visão que se lhe apresentava. Ora!, eu apenas estava com as nádegas expostas, limpando o bumbum! Por que raios um fato como esse chamaria a atenção de um felino? Para certificar-me de sua reação eu desviava meu olhar fingindo não observar o dele. Eu permanecia estática enquanto ele mantinha firmemente os olhos no meu corpo desnudo da cintura para baixo.
Lewis é um gato bebê, tem apenas 7 meses, mas muito astuto. Na verdade, fixava os olhos em mim como se admirasse a minha silhueta, e é isso mesmo o que seu semblante dizia. O fato me intrigou deveras. Ora essa!, será que os gatos são capazes de apreciar algo que consideram belo? Podem se maravilhar com formas femininas? Fiquei matutando por alguns instantes acerca dessa questão. Há tempos atrás não poderia eu sequer supor que tal peripécia fosse possível. Permaneci inerte e absorta nas minhas indagações. Um observador externo visualizaria referida cena como a de dois filósofos apaixonados, cada qual com o seu objeto de estudo.
De repente, sem mas nem porque, os olhos do gato traspassaram o meu exterior e atingiram certeiros a minha alma redonda. Não restava agora a menor sombra de dúvida! Ao captar as minhas formas ele apreendia um pouco mais de mim... Ficávamos cada vez mais íntimos. Sua inteligência e sensibilidade me encantaram em definitivo.
Seus olhos grandes, redondos e amarelos reluziam perplexos, admirando aquela obra da natureza cuja beleza era creditada ao mistério. Seu instinto aguçado e sua ousadia afastavam qualquer pudor que a situação pudesse inspirar. Naquele instante mágico experimentei, mais uma vez, a comunhão com Deus.
* É escritora.
