Adlla Rijo

Entre os meses de outubro de 2010 e janeiro de 2011, tive uma das experiências mais dolorosas de minha vida. Perdi minha mãe, Diva, que se foi pouco antes de completar seus sessenta e quatro anos. Uma mulher cujo nome lhe fazia jus, pois premiada com intensa beleza física e espiritual, impregnada de amor, generosidade e sabedoria. Contudo, sua profissão desgastante - formou-se com vinte e quatro anos em medicina, e especializou-se em psiquiatria - e a rotina implacável de quem precisa cuidar de três filhos e ainda ser esposa e dona de casa impecável, assim como sua aceitação e adaptação aos conhecimentos adquiridos e vigentes em sua época, roubaram-lhe os anos vindouros na maturidade. Havia algo nela que lutava para se desvencilhar de todo esse encargo inclemente, mas é como se, embora altissonante, ela não pudesse escutar tal canto, advindo dos recantos mais profundos de sua alma. Quando veio escutar já era tarde. Nunca me esqueço do quanto ela repetia, quando já doente, que quando ela se fosse, eu empregasse parte do dinheiro da herança num apartamento pequeno (o que eu morava tinha uma dimensão que para ela, naquele momento, significava excesso). Aí ela já clamava por simplicidade.
No decorrer de seu suplício, pois ficou internada por aproximadamente quatro meses no Hospital das Clinicas de São Paulo, os médicos reuniram-se conosco, seus filhos, para dizer que o caso de minha mãe não podia ser tratado. E por uma razão muito simples: eles fizeram todos os exames e nenhum deles foi capaz de detectar a doença de minha mãe. Sem diagnóstico não tem tratamento. Perplexa, pois racional como era eu, não me passava pela cabeça que a medicina, nos dias de hoje, podia não dar conta, ao menos, de desvendar determinada doença, indaguei aos médicos se havia outros casos como este. A resposta, que me surpreendeu, é que isso é muito mais comum do que se imagina.
Pouco antes de falecer, quando os médicos estavam tentando estancar um sangramento que vinha de um de seus órgãos internos, minha mãe ainda teve ânimo para balbuciar algumas palavras: “Vocês falam tanto e não podem fazer nada por mim. Não sabem o que fazer”.
Sua morte foi um divisor de águas em minha vida. Primeiro, é claro, tive que enfrentar o luto da perda, que durou mais de dois anos. Todos os dias ressoava vibrante a voz de minha mãe em meus ouvidos. Eu a ouvia nitidamente. Sua ausência doía como um corte dilacerante. Mas o tempo, como sempre, encarrega-se de fazer menos doloridas as feridas existenciais.
O resultado é que a partir daí minha busca é pelo intangível. Procurei desvencilhar-me do “normal”, do convencional, de tudo aquilo que captura e engessa. Nesse renascimento, transformei-me. Hoje, as plantas são as minhas maiores confidentes, os pássaros são os meus maiores ídolos, tanto que o canto tornou-se minha expressão por excelência, o sol transmudou-se em alimento e remédio, e a minha conversa com Deus se dá sem necessidade de palavras.
Ao invés de ler Freud, descubro a genialidade de Jung, ao invés da ânsia de viajar nos feriados, um novo mergulho na minha rotina, ao invés de fibras e vegetais, o sabor da carne oferecida por obra da natureza. Ao invés da moda, o conforto da vestimenta, sem descuidar do belo, afinal sou humana, e ainda por cima, mulher. Ao invés da badalação, o recolhimento.
Meu norte? A filosofia e a arte. Relíquias para quem almeja encaminhar-se às alturas. De fato, minha mãe atingiu o auge da sabedoria durante seus dias últimos. A natureza revelou-lhe seu segredo: ama a simplicidade. Quisera eu que ela tivesse alcançado tal estado de espirito sem necessitar de tamanha provação.
Se olharmos de forma mais detida para tudo o que nos cerca, seremos alertados das inúmeras coisas neste mundo que fogem à nossa rasa compreensão. O amor, o fogo, a arte, os movimentos planetários, a nossa aparição na terra. Tudo isso a ciência tenta explicar, porém esbarra quando a questão é a da causa primeira.
A música é outro fenômeno inexplicável, porém sem muito significado para aqueles que levam a vida pautados na pura razão. Cantar, e também compor, é um exercício de sensibilidade e loucura, que trabalha em prol da nossa saúde. Já se perguntaram por que há cantores e compositores que são tão reverenciados e amados? Pelo simples fato de que ela, a música, assim como as artes em geral, nos remete às nossas origens, à nossa relação com o lúdico, com o divino e com a natureza. As previsões desvelam o que ainda será, a ciência e a filosofia se ocupam do que pode ser, a história nos revela aquilo que já foi, só a arte, simplesmente, é.
Não significa dizer que devemos nos despir de toda a racionalidade. Ela é crucial em determinadas circunstâncias. É preciso, contudo, ter cuidado para não cair na sua armadilha: a promessa constante de uma vida segura. O resgate, em casos como esse, é lento, doloroso e, por vezes, sem sucesso. Racionalidade em demasia, primeiro, embota; depois, sabota e, por fim, desbota.