sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O ciúme exacerbado nada mais é do que a negação da existência do outro. Vã tentativa de suprimir sua condição de indivíduo, e como tal sua sujeição ao prazer e à liberdade. (Adlla Rijo)
              Imagem: Wikimedia commons (por Chico Ferreira)

Se na natureza nada se cria tudo se transforma, é mais forte e integrado aquele que devora, sim, a vida alheia; porém com o mais profundo zelo. (Adlla Rijo)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


"Acordo às quatro" - música do médico e compositor Marcondes Costa (coincidentemente meu pai!), gravada por Luiz Gonzaga.




Acordo às quatro
Tomo meu café
Dou um beijo na muié
E nas crianças também
Vou pro trabáio
Com céu ainda escuro
Respirando esse ar puro
Que só minha terra tem

Levo comigo
Minha foice e a enxada
Vou seguindo pela estrada
Vou pro campo trabaiá
Vou ouvindo
O cantar dos passarinhos
Vou andando, vou sozinho
Tenho Deus pra me ajudar

Tenho as miúças
Carneiro, porco e galinha
Tenho inté uma vaquinha
Que a muié véve a cuidar
E os menino
Digo sempre a Iracema
Em Santana de Ipanema
Todos os três vai estudar

Pois eu não quero
Fío meu analfabeto
Quero no caminho certo
Da cartilha do abc

Eu mesmo
Nunca tive essa sorte
Mas eu luto inté a morte} bis
Móde eles aprender

(Marcondes Costa)

domingo, 25 de outubro de 2015

NOITE (Letra de Música)

"Nas amarras dos desejos
Eu busco novos caminhos
Abraço as damas da noite
Me embalo nos seus carinhos
Eu bebo o pecado das ninfas
Em dedos de lindos anéis
E a noite descobre segredos
No leito dos infiéis
A lua escorrega nas ruas
Enfeita novos bordéis
Mulheres desfazem seus sonhos
Nos braços de homens cruéis
Paixão tirana e mortal
Repete o mesmo ciúme
No rosto de um corpo abatido
Exala um forte perfume
As flores adornam os copos
Na mesa dos apaixonados
Nas rugas de um bêbedo hostil
O tombo dos desamparados"

(Música de Marcondes Costa e Chico Elpídio)



Quer seja no zênite da bem-aventurança, quer seja no cume da dor, o indivíduo é capaz de perceber com a absoluta limpidez das águas diáfanas a sua indissociabilidade do todo. Tal capacidade, contudo, vem sendo paulatinamente corroída pelo próprio agente em sua busca insaciável pelo que erroneamente passou a denominar "progresso". (Adlla Rijo)




O ponto intermediário entre o ser e o não ser não é, necessariamente, a dor descomunal. O caminho natural da vida não é abrigar o sofrimento. É passar suavemente. O homem é quem desalinha a trajetória; a sua e de seus desafortunados descendentes. (Adlla Rijo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

                                                                    Imagem: Google

É preciso enxergar a dor como um recurso vital para nos afastar dos perigos e preservar a vida, e não como um mecanismo diabólico para nos apartar dela. A maneira como visualizamos a dor pode definir o que dela será feito.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

REVELAÇÃO


     
                  Somente na idade da loba logrou enxergar-se no espelho. A verdadeira face à mostra, translúcida, despida dos medos, disfarces e arremedos.


Imagem: Google

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

PEGA-PEGA


Puseram-se a brincar. Menino pega menina. Ofegantemente, lançavam-se à mancha para imunizar-se...  -Olha! Elaine tropeçou ! gritaram. Lá estava ela por terra, a saia abraçando-lhe a  nuca. Contemplaram-lhe as nádegas, úmidas de um orvalho dourado, que refletia os flébeis raios do final da tarde. Havia tirado a calcinha, já que fizera xixi inopinadamente. -A brincadeira melou!

Imagem: Google

QUE HISTÓRIA É ESSA DE QUE DEUS ESTÁ MORTO?

Seria o progresso científico experimentado na contemporaneidade incompatível com a fé num Ser Supremo? Se a resposta fosse positiva, em que medida poderíamos resgatá-la?



A crença em Deus e em Deuses vem regendo a humanidade durante milênios. A criação do universo e do homem sempre foi atribuída aos poderes divinos, cabendo a cada indivíduo reverenciar seu criador ou criadores através dos rituais religiosos. No que toca ao mundo Ocidental, essa situação sofreu alterações a partir da revolução científica (expressão usada pelo historiador Alexandre Koyré para designar as significativas mudanças que ocorreram na estrutura do pensamento humano entre os séculos XVI e XVIII e tiveram grande influência no desenvolvimento das ciências). Em nossa era, a crescente tecnicização proporcionada, especialmente, pelas tecnociências vem afirmando insistentemente a morte de Deus, tal qual ele foi gerado pela mente humana. Referido tema vem sendo constantemente explorado no âmbito filosófico e ganha consideráveis proporções em nossa época. O desenvolvimento científico, particularmente nas áreas das biotecnologias, vem sugerindo ao indivíduo que ele pode mais do que supunha e que sua capacidade geradora poderia atingir até mesmo os patamares antes creditados apenas aos entes divinos. 
Os poderes de transformação da natureza alcançados através do conhecimento científico têm indubitáveis aspectos positivos dada a fase da humanidade em que estamos inseridos. Contudo, há também visíveis, ponderáveis e substanciais perigos nessa conquista. Na medida em que consegue sujeitar a natureza não só às suas necessidades, mas também às suas conveniências, transformando o meio ambiente, manipulando geneticamente os seres que aqui habitam, clonando animais, alterando a química dos alimentos - se é que tais produtos, industrialmente fabricados, podem ser chamados de alimentos, o homem expande seu ego. Afirma, para si mesmo, a morte de Deus (esse Deus antopomórfico tão incutido em nós), e por vezes acaba acreditando ser, agora, o todo poderoso. Tal fenômeno, qual seja, o da morte metafórica de Deus, dependendo de seus desdobramentos, pode ser visto como salutar ou deletério, a depender do ângulo de observação. 
Se levarmos em consideração que a grande maioria dos homens necessita de um conjunto de regras capazes de pôr um freio em seus instintos destrutivos, com o intuito, inclusive, de não sobrecarregar, ainda mais, o sistema penal, somos obrigados a admitir, assim como o fez o filósofo Espinosa, que o Deus personalizado defendido pelas religiões monoteístas, a exemplo da religião católica, é não só necessário, mas indispensável à humanidade.
Por outro lado, se compreendermos a morte de Deus como sendo a morte de um ente  (onisciente, onipresente e onipotente) controlador, punitivo e sempre prestes a julgar e castigar os “pecadores”, a constatação de sua inexistência não seria algo indesejável. Aliás, tais características não se coadunam com a concepção de um Ser Supremo dotado de bondade infinita, revelando a evidente contradição para aqueles que possuam um pouco de bom senso!
Nietzsche já havia matado Deus, angariando a antipatia de muitas pessoas. Mas o que ele fez realmente foi pôr um fim no velho conceito de divindade imposto pelas igrejas e acatado pelos fiéis como dogma. Conforme seus ensinamentos, Deus era um conceito que o homem tinha criado e do qual precisava em face do desencanto do mundo, mas que era necessário abandonar deixando-o morrer. Nesse sentido, não há como negar que Nietzsche teve um papel fundamental no tocante à evolução do conhecimento humano, haja vista que, quando uma ideia ultrapassada morre, é momento de buscar novos horizontes.
É sabido que nenhum método científico se presta a provar ou descartar a existência de Deus. Da mesma forma, Nietzsche jamais poderia fazê-lo. Seu grande mérito foi o de levar os indivíduos a uma reflexão sobre a crença em um Deus repleto de incoerências, crença essa que favorece a manutenção de uma casta de homens que se intitulam seus representantes e fomenta a subserviência por parte de outros. 
Quem assistiu, recentemente, ao filme “14 Estações de Maria”, do diretor e roteirista alemão Dietrich Brüggemann, e compreendeu a sua mensagem pôde assimilar o quanto a religião católica e seus preceitos logram aniquilar a vivacidade de uma pessoa, tornando-a, no mínimo, apática e distanciada de sua verdadeira essência.
Nessa linha de raciocínio, Nietzsche deu a sua inenarrável contribuição ao pensamento filosófico, mas não cogitou que, para além dessa morte anunciada, outro Deus poderia ressurgir. Um Deus mais consentâneo com o universo e seus mistérios, com a natureza e sua necessária harmonia, com o homem e sua constituição. Refiro-me ao Deus revelado por Espinosa, filósofo racionalista que viveu no século XVII e que sofreu influência do pensamento de Descartes. Espinosa, diferentemente deste, defendia a existência de uma Substância Única (Deus), da qual os seres são apenas modos. Segundo ele, os seres humanos, e apenas estes, são dotados de dois atributos divinos, quais sejam: a extensão (corpo) e o pensamento. Dessa forma, para o monismo espinosano, Deus também é matéria na medida em que é imanente ao mundo, confundindo-se com a própria natureza, ao contrário do que ensinam as religiões, que o vêem como um Ser transcendente. O ato pelo qual Deus se produz é o mesmo pelo qual ele produz tudo o que existe. Para Espinosa, a realidade (o mundo) e a concepção são idênticas, ou seja, coincidem a ponto de podermos afirmar que as nossas ideias adequadas correspondem plenamente à realidade.
Essa ideia de que Deus é também pensamento (consciência) não é restrita à filosofia. Cientistas da contemporaneidade e de renome, a exemplo de Robert Lanza, médico americano atuante na área da medicina regenerativa, autor de Biocentrism, de Stuart Hameroff, anestesista e professor da Universidade do Arizona, e do físico, matemático e filósofo inglês Roger Penrose, fundamentados na mecânica quântica, também sustentam a existência de uma consciência universal ou protoconsciência: uma propriedade fundamental do universo. Asseveram que nossas almas são, de fato, construídas a partir do próprio tecido do universo e podem ter existido desde o início dos tempos. Asseguram que nossos cérebros são apenas receptores e amplificadores para a protoconsciência, que é intrínseca ao tecido do espaço-tempo.   

Com tais considerações, resta-nos torcer para que a aceitação dessa Substância Única, explicitada por Espinosa, viabilize uma conscientização dos indivíduos no sentido de um alerta para a preservação do ecossistema e da importância acerca da integração do homem com a natureza-Deus. E, oxalá, a partir daí possamos fazer nossas as palavras de Jung. Quando indagado no ano de 1959, em uma entrevista para a BBC, sobre a crença ou não em Deus, ele respondeu: “Não preciso acreditar...eu o conheço”. (Carl Jung: curador ferido de almas - Dunne Claire; tradução de Eliana Rocha. - 1 ed. - São Paulo: Alaúde Editorial, 2012, pg. 230.)


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A GENIALIDADE DE MACHADO DE ASSIS NA ABORDAGEM SOBRE A LOUCURA

Existe uma forma de delimitar o campo daquilo que se entende por loucura? Haveria um homem capaz de tal empreendimento? Quais comportamentos seriam indicativos de insanidade mental? Que fazer com os reconhecidamente “desajustados”? Eis o desafio insólito do personagem Simão Bacamarte, em O alienista de Machado de Assis.


Um dos contos de feitura mais admirável de Machado de Assis, O alienista é uma sátira magistral acerca da inviabilidade de se definir a esfera da loucura, sob pena de incorrer numa generalização abominável. Afinal, como diz o ditado popular: “de médico e louco todo mundo tem um pouco”.

A estória se passa na vila de Itaguaí, onde um médico, o Dr. Simão Bacamarte, obcecado por detectar enfermidades psíquicas, passa a recolher os supostos enfermos num asilo por ele criado, a chamada “Casa Verde”, com o propósito de tratá-los, assim como de desenvolver suas teorias científicas.

Já desde o início de sua obra-prima, Machado dá dicas da insolência da missão abraçada pelo personagem. Não é à toa que o apresenta, na primeira página, como o “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas". A ironia machadiana resplandece fosforescente nesse texto.

No decorrer da narrativa, é apresentado ao leitor um fato inusitado: “[…] quatro quintos da população da vila estavam aposentados naquele estabelecimento […]”, ou seja, na Casa Verde. E disso decorre o mais curioso, que é a conclusão do Dr. Bacamarte: “[…] que desse exame e do fato estatístico resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; […]”. Com isso, o protagonista resolve dar liberdade aos reclusos da Casa Verde, que já representavam a esmagadora maioria da população local, e agasalhar nela as pessoas que se achassem na condição acima exposta, qual seja: equilíbrio ininterrupto das faculdades mentais.

Tendo em vista que a anomalia é tida como exceção e não como regra, o excêntrico personagem de Machado deduz que a loucura seria, então, o oposto daquilo que a maioria vem manifestando, ainda que o comportamento dessa maioria tenha sido, outrora, para ele, o indicativo de desajuste.
Salta aos olhos, também no conto, o perigo de se atribuir a um único homem um poder dessa natureza: o de classificar indivíduos segundo o seu critério e tolher a liberdade das pessoas, mesmo que em nome da ciência.

Secionar a humanidade em categorias, seja qual for o objetivo, é algo no mínimo temerário e pode levar, em casos extremos, a situações dramáticas como o holocausto. Os seres humanos tem suas particularidades e cada indivíduo é um mundo.

Não há como deixar escapar a intenção do autor de criticar de maneira sarcástica a psicologia sanitarista que dominava a época, bem como a postura pretensiosa de alguns no sentido de considerar que encontraram a chave para as mazelas da humanidade; como se tal chave existisse!

Convém notar que Simão Bacamarte não era um homem desprezível. Ao contrário; desfrutava de intensa credibilidade junto aos cidadãos da vila e à própria Câmara de Vereadores, e suas intenções foram expostas como sendo as melhores. Tanto é assim que na narrativa ele enclausura na Casa Verde a mulher que ama, sua própria esposa, D. Evarista da Costa e Mascarenhas, ao constatar a sua suposta patologia.

Nenhum desvio se subtraía aos olhos daquele homem que, paradoxalmente, acaba se apresentando, na trama, como o mais anormal de todos. Afinal, como fica evidente no texto de Machado, a totalidade dos hóspedes da Casa Verde conseguira, senão obter a cura, retornar às suas vidas fora desse estabelecimento, exceto Simão Bacamarte. É que, achando em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral, decide fechar-se na Casa Verde, apesar dos apelos contrários da mulher e dos amigos, entregando-se ao estudo e à cura de si mesmo até sua morte, que não teria tardado, segundo se depreende da narrativa.

Aliás, cabem aqui parênteses para reforçar o quanto uma obra está intrincada com as vivências de seu autor. Em seu livro Machado de Assis - Um gênio brasileiro, Daniel Piza destaca: “[….] Ele enfrentou muitos preconceitos de sua época: o preconceito racial, como um mulato escuro que viveu 49 dos 69 anos num Brasil escravocrata; o preconceito social, como um epiléptico de origem muito pobre que tinha grandes ambições literárias; e o preconceito intelectual, como escritor que adotou linguagem concisa e cristalina, rejeitou o otimismo e a religião e jamais aderiu a modas estéticas.” E acrescenta, referindo-se à epilepsia de que era portador o nosso gênio: “[…] Depois da morte da amada, ressurgiu sem dó o mal que, para muitos, naqueles tempos, era sinal de insanidade.”

Com sua genialidade, Machado nos apresenta uma forma brilhante de fazer o grande público enxergar o risco na atitude indesejada de rotular pessoas, de secionar populações, de superestimar indivíduos e teorias, sejam elas filosóficas, religiosas ou científicas; e por fim, de “nunca sair dos trilhos”.


O ser humano é um misto de alegria e tristeza, de amor e ódio, de inquietude e paz, de loucura e sanidade. Carregamos o bom e o mau dentro de nós. Temos, cada qual, um pouco de Deus e do diabo em nossas entranhas. Negar isso significa negar a nossa própria essência, o que resulta não só em tolice, mas na maior e mais destrutiva loucura; que o diga Simão Bacamarte!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

ROTINA, AMOR E CUMPLICIDADE


   Intacto como um diamante, sobreviveu a intempéries e catástrofes. Foi premiado com alguns arranhões ao resvalar, consoante seu singular ponto de vista, na mais avassaladora das tentações.

IMAGEM: GOOGLE



O DOGMA FEMININO


       Sempre carreguei um dogma comigo. Quase uma cláusula pétrea, como se costuma dizer em jargão jurídico. Nunca soube se isso era bom ou ruim, se mais ajudava ou atrapalhava, mas foi este preceito que aprendi de minha mãe: “Uma mulher nunca deve dar o primeiro passo para fisgar um homem; nunca deve oferecer-se a um sujeito. Pode, sim, dar os sinais de que ela o deseja, mas jamais tomar a iniciativa. Isso é papel do varão”. Parece machista? Talvez. Mas todos hão de concordar que é difícil livrar-se de tais dogmas do culto de Afrodite. A respeito disso, tenho uma história para contar, que a mim parece de complexa elucidação. Vamos a ela.
Em Aracaju, no mês de maio de 2008, imbuída do propósito de ficar mais bela, como faz boa parte das mulheres de hoje em dia, resolvi submeter-me, com o apoio de meu marido, a uma cirurgia plástica para suspensão das mamas e colocação de próteses de silicone. É! A tal da mamoplastia! A cirurgia correu bem. Não houve complicação alguma com a anestesia ou qualquer evento que me levasse ao arrependimento; a não ser um que, entretanto, não diz respeito às mamas, mas à minha paz espiritual: apaixonei-me perdidamente pelo “escultor” de meus seios, meu cirurgião. Não sei exatamente em que trecho do caminho eu me perdi. Simplesmente, quando dei por mim, estava absolutamente enlaçada e presa na esparrela da paixão.
Ressalte-se que todas as variáveis envolvidas contribuíram para esse resultado, e penso que não havia mesmo maneira de serem as coisas de forma diversa. Eu me sentia sozinha há cerca de um mês. Sozinha quer dizer: negligenciada por meu marido, como uma adolescente sem rolo e sem ficante! O médico era um belo homem de 58 anos, cuja aparência era de 50, que tinha um sorriso puro e os olhos mais doces e penetrantes que já vi em toda a minha vida, “olhos castanhos de encantos tamanhos”, como falava uma canção que tanto ouvira na minha infância. Assevero, mesmo, como esposa de um jovem Desembargador recém-empossado, que deveria ser terminantemente proscrito um homem tão lindo e refinado exercer o mister de cirurgião plástico, ainda mais sendo divorciado, como era o caso. 
A cirurgia durou cerca de 4 horas e, algum tempo depois, eu já estava repousando no quarto do hospital. À noite, ele foi me ver; disse que eu me encontrava mal posicionada na cama e ajeitou-me com tal desvelo, com a ajuda do meu marido, que eu não pude deixar de oferecer-lhe um sorriso malicioso na hora em que estava retirando-se. Ele apenas me olhou com um discreto espanto complacente.
Entretanto, o que havia de mais crítico eram as tais das “revisões”. Periodicamente, eu deveria ir ao consultório para que ele examinasse meus peitos, com o objetivo de saber se tudo estava no lugar. Modéstia à parte, eles ficaram lindos, duas peras rijas, alvas e suculentas, cuja dona também não deixava nada a desejar, apesar de já ser uma jovem loba. Olhos grandes e negros, assim como cabelos volumosos e longos da mesma tonalidade, contrastavam com uma pele clara, que dava forma a um corpo escultural, a começar pela cintura de vespa, ou de pilão, como se diz no Nordeste. Não bastasse isso, a cada dia, eu me fazia mais vistosa e logo que pude usar uma lingerie mais sensual, não titubeei, para o prazer de meu marido, que, em meio às suas atarefadas idas e vindas do Tribunal de Justiça, foi tomado de um surto de virilidade.
Para demonstrar o quanto eu ficara satisfeita com o desfecho da cirurgia, resolvi dar a meu médico um presente e, para tal propósito, considerei que nada seria melhor do que um livro, na primeira página do qual redigi uma dedicatória, assim escrita de próprio punho:
“Para dr. Fernando,
uma pequena lembrança para o mais 
nobre dos artistas: aquele que faz verdadeiras 
obras de arte em matéria viva.
Com admiração.
Catherine.”
Ao entregar o livro, vi que ele leu atentamente a dedicatória. Percebi a sua perturbação. Eu havia conseguido abalá-lo! Ele parecia olhar-me como quem dizia: “Ah! Se tudo tivesse acontecido em outras circunstâncias...”.  Trocando em miúdos: “Ah! Como seria bom se a tivesse conhecido fora do consultório...”. Entrementes, ele me disse que não iria atender no início do próximo mês, pois seria o seu aniversário. Ah! Como me senti prestigiada ao ser digna de saber o dia do aniversário dele! Na saída, ainda me deu dois beijinhos.
Antes do seu aniversário, necessitei de uma revisão extra. Havia surgido um pequeno ponto infeccionado na mama esquerda; nada grave. Fiquei aguardando na saleta de exames, deitada numa maca, nua da cintura para cima, com uma calça colada ao corpo, de couro, cor de vinho, e sapatos altos, fingindo ler um livro, cujo título eu tentei esconder logo que ele entrou, pois se tratava d’O mundo do sexo, de Henry Miller. Nessa ocasião, ele se mostrou enormemente receptivo e disse que havia começado a ler o livro que eu lhe dera, cujo título era Da tranquilidade da alma. Conversamos, então, por alguns minutos.
- Minha cara, estava caminhando no calçadão da praia, ontem à noite, e lembrei que você tinha dito que caminhava na areia; então, como estava tudo iluminado, fui lá caminhar também... – disse ele empolgado.
- Ah! É muito melhor caminhar na areia da praia, eu adoro, mas tenho receio de fazer isso à noite. Prefiro de manhãzinha.
- É, sozinha eu não recomendo...
- É, acho perigoso.
- É, sozinha eu não recomendo...
Findo o exame, ele me ajudou a vestir minha blusa e se despediu assumindo um ar professoral, cuja razão não entendi.
 - Tome o seu livrinho, até mais – disse ele.
Somente quando saí do consultório é que me dei conta da provável estupidez que eu havia cometido.  É claro que ele falou em caminhar na areia à noite para estar comigo num lugar mais reservado. Essa seria a única forma de programarmos um encontro supostamente desinteressado. Como pude ser tão estúpida? Mas depois me veio a indagação: o que ele pretendia? Um encontro fortuito? Uma saída ocasional? Uma noite apenas?
Achei por bem não telefonar no dia do seu aniversário; afinal, eu não era nada mais que uma paciente dentre as outras, todas apaixonadas por ele. Resolvi então mandar uma mensagem pelo celular, parabenizando-o. Pouco tempo depois, recebi dele um torpedo que me agradecia e me mandava um abraço.
Na revisão seguinte, já estava sem fôlego de tanta vontade de reencontrá-lo e pensava: “Tanta espera por tão poucos minutos”. No entanto, o mais inusitado vocês não sabem. Como aquele livro que eu lhe dera não fora comprado com o objetivo de presenteá-lo no seu aniversário, resolvi fazer-lhe outro agrado, até mesmo para tentar reparar a minha falta de bom senso na revisão anterior. Comprei-lhe uma cesta de guloseimas naturais, acompanhadas de um vinho argentino, um Malbec, Joffré e hijas Premium, safra 2002, que não tive coragem de entregar pessoalmente, mas que deixei com a sua atendente, para que lhe entregasse somente no final do expediente, conforme tornei bem claro. 
Durante a consulta, a sua assistente saiu da sala, então procurei travar com ele o máximo de conversa possível, mas logo ela retornou, e ele pareceu tão monossilábico e tecnicista que saí de lá destruída. Parecia que ele estava ali apenas para cumprir uma obrigação profissional! Cheguei mesmo a chorar quando entrei no meu carro. O que minha consciência dizia era: “Como você foi tola ao desperdiçar seu tempo e sua energia nessa empreitada! Logo, ele rirá de você, pois perceberá os seus sentimentos quando receber a cesta”.
Por volta das 19 horas, ele me mandou uma mensagem, cujo teor era o seguinte:
“Oi Caterine! Muitíssimo obrigado mais uma vez. Só em dizer que está contente com o resultado já é um grande presente. Agora tem que ser um Abraço especial.
Fernando.”
A primeira coisa que observei é que ele tinha errado a grafia do meu nome. Supus que nunca houvera prestado atenção na dedicatória do livro que eu lhe havia dado. Também me perguntei o porquê de ele não ter telefonado, mas apenas enviado uma simples mensagem. Entretanto, o final do texto me deixou desesperadamente intrigada: “Agora tem que ser um Abraço especial.” O que significava aquilo? Se é que significava alguma coisa. Fui tomada por um desejo insidioso e provavelmente delirante de devolver-lhe a mensagem, apenas perguntando: “Onde pode ser?”, ou simplesmente: “Where?”. Mas, como sempre foi da minha índole, contive-me. Considerando a forma como saí de lá na última consulta, preponderou o fato de ele não ter telefonado, mas apenas mandado um torpedo. Certamente quer manter distância.
Embora meu eletrocardiograma pré-operatório tenha apontado uma excelente condição cardíaca, fiquei a ponto de ter um infarto quando, no dia seguinte, vi no meu celular que havia uma ligação dele. Mas, assim que chequei na agenda do aparelho, constatei que era uma ligação do telefone fixo do consultório, e não do celular. Mesmo assim, minha dúvida tomou proporções oceânicas e logo tratei de ligar de volta. A atendente, com uma voz matizada de desconfiança, não sei se por mera distorção do meu espírito açodado, disse-me que o Doutor queria falar comigo e lhe passou a ligação. 
- Alô
- Oi, dr. Fernando. Como vai? – Perguntei, com um tom tímido. 
- Bem, Obrigado. Liguei para agradecer o presente. Gostei muito.
- É, eu vi a mensagem – balbuciei com uma voz hesitante.
-Viu?
- Vi...
 - Eram castanhas?
- Sim, castanhas e nozes.
- Já comi algumas, mas o vinho eu vou tomar este final de semana...
 Fiquei muda por um instante pensando nessa frase, mas a única coisa que esvoaçou da minha boca foi:
 - Espero que goste.
Em seguida, sua voz ressoou com a frieza de uma crosta de gelo dos Andes quando ele se despediu e desligou o telefone.
Passei vários dias pensando nisso. Acordava perguntando-me se essa frase não seria uma isca para que eu a fisgasse e dissesse: “Podemos tomar juntos?” Ah! Como eu queria ser fisgada por ele! Mas, a meu ver, dizer aquilo seria muito descaramento para uma mulher. Eu já tinha feito a minha parte. Já tinha demonstrado que ele era importante para mim. Era ele, como homem, quem tinha de perguntar: “Será que podemos tomar juntos? Como amigos, é claro”.
Entre esse episódio e a consulta posterior, que seria a última, passaram-se dois infindáveis meses. Preparei-me como de costume: malhação, depilação, design de sobrancelha, banho de lua, esfoliação, hidratação e, por fim, cabelos, unhas e maquiagem. Coloquei as roupas cujas formas me concediam o máximo de sobriedade, elegância e, ao mesmo tempo, sensualidade. Não sei bem para quê, pois quando ele entrou na saleta de exames, eu já estava com o torso nu e ofegante, segurando um paninho para cobrir meus seios. 
- Quanto tempo!... - disse ele, esboçando aquele sorriso magnífico. - Essas revisões deviam ocorrer mais vezes.
Não acreditei bem no que estava ouvindo; refiro-me à última frase. Achei que podia ser uma espécie de alucinação auditiva. Então, respondi, atordoada e com a desenvoltura comprometida:
- É, foram dois meses.
Em seguida, ele apalpou minha cicatriz, dizendo que ela estava muito boa, pois apesar de vermelha, não estava grossa. Perguntei, então, se eu já podia fazer exercícios que mexessem com o peitoral, ao que ele respondeu que, por enquanto, não; só quando se completassem seis meses de cirurgia.
- Ah! Pensei que já poderia fazer abdominal infra, pendurada na barra. - Falei manhosa, para puxar mais conversa.
- Como é esse exercício? Mostre-me, para que eu lhe diga se você pode ou não fazer.
Então, levantei bem os braços, simulando o tal exercício, inclinando um pouco meu corpo para frente e livrando-me, felizmente, do tal paninho que eu até então segurava. Tudo para que ele visse bem o quanto eu estava em forma. Eu não queria com ele nada menos do que tudo. Faria qualquer coisa por aquele homem. Submeter-me-ia, com elevada satisfação e garantia de absoluto e perpétuo sigilo, a qualquer um dos seus desejos mais lascivos e até mesmo aos mais doidivanas, se os tivesse.
Acontece que, no decorrer do exame, percebi que ele foi ficando um tanto impaciente, como se quisesse sair logo dali, o que suscitou em mim as mais diversas fantasias; e antes que não o visse nunca mais, apressei-me em falar.
- Você gostou do vinho?
Com uma caramunha dantesca, impressa de seriedade e rigidez, e já saindo da sala, ele respondeu secamente:
 - Gostei.
Notei que não agradecera no momento, o que me pareceu indelicado e destoante, mormente considerando tratar-se de um homem educado. Mas, após já ter saído da sala e fechado a porta, abriu-a novamente perguntando, com a mesma frieza: 
- Eu mandei uma mensagem agradecendo, não mandei?
- Sim, mandou... E ligou no dia seguinte – respondi automaticamente, com um semblante bastante descabreado, tentando não dar à minha voz um tom revelador. 
Dito isso, vocês não podem imaginar qual foi a minha surpresa ao ver aquela inabalável coluna dórica do Panteão médico sergipano desabar subitamente porta adentro na minha frente, com o rosto mais rubicundo do que um tomate maduro. Vi-me aterrorizada com a cena, quando passado o primeiro impacto, apressei-me em socorrê-lo e gritar por ajuda. Porém, à medida que os segundos se passavam, fui dando-me conta de que algo muitíssimo grave estava acontecendo, pois nem a respiração boca a boca, nem as bruscas massagens que fiz em seu peito adiantavam. Ele sofrera um infarto fulminante e, em pouquíssimos minutos, percebi que meus esforços eram vãos. Todos os sinais vitais haviam-se esvaído. Não havia mais pulsação.
 A partir daí, entreguei-me ao desespero e passei a sacudi-lo inutilmente, chorando e indagando, em vagidos altíssonos, em frente das pessoas que já estavam na saleta e a tudo assistiam:
- Por que ficou tão abalado? Sente alguma coisa por mim? O que pretendia comigo? Diga!!! Diga!!! Diga!!!
Ao me verem naquela situação, todos, incluindo a atendente, a assistente e os pacientes, olhavam-me com a certeza de que eu havia surtado ou de que eles próprios participavam dum estranho fenômeno alucinógeno coletivo.
Foi esse o último contato que tive com aquele homem que eu desejava com toda a candura da minha alma e com os mais libertinos propósitos. Naquele instante, minha paixão estava no seu ápice, flutuando no céu dos arrebatamentos amorosos.
A par dos acontecimentos, e assegurando-lhes, caros leitores, que o fato ocorreu exatamente como narrado, deixo a vocês a incumbência de desvendar se, de fato, havia interesse da parte dele ou se tudo não passou de puro devaneio de minha mente, sempre tão criativa. Meu marido parece compartilhar dessa última opinião, visto que está bastante feliz em pagar-me, agora, uma psicanálise.

De qualquer forma, é certo que, diante das circunstâncias, meu cirurgião não podia, nem na sua prévia condição de médico conceituado, nem no seu novo status de finado cavaleiro, cortejar-me abertamente. Não podia tomar a iniciativa. Quanto a mim, mulher madura, de razoável experiência, desenfreadamente apaixonada e, ainda por cima, siliconada, esbarrei e esborrachei-me no dogma feminino... com silicone e tudo!

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O MONSTRO DOS OLHOS VERDES

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A cegueira do ciúme furtou- lhe a máscula singeleza. Desceu do palco e acabou na escuridão de uma cela.

         



SEMOVENTES


    Inusitadamente, mais se engelhava, mais florescia, chegando mesmo a frutificar. Só empós, deu-se conta da aridez do solo.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O SER ANTINATURAL ou O DASEIN DO COMENSAL MODERNO

Os jornais não cansam de noticiar o aumento da expectativa de vida do brasileiro a cada ano, assim como em outros países latino-americanos. A expectativa de vida do brasileiro aumentou 11,24 anos de 1980 (62,52 anos) a 2010 (73,76 anos). Segundo o IBGE (Tábuas de Mortalidade 2010 – Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação), nosso país ocupa o 91º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre expectativa de vida. O Chile está na 34ª posição e a Argentina, na 59ª. No grupo Brics (formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o país fica atrás apenas da China (70º). Depois do Brasil, estão Rússia (134º), Índia (149º) e África do Sul (179º).
Tais pesquisas parecem animadoras quando observadas em termos de números, mas escondem uma realidade bem menos exitosa quando se questiona a qualidade de vida de nossos idosos. Afinal, não faz sentido prolongar o tempo de existência biológica, sem conferir aos anos remanescentes vitalidade e vigor.
 É certo que a medicina e os fármacos tornaram-se reveladores do ser, e tal circunstância, aliada às revoluções tecnológicas, vem permitindo um aumento considerável do percurso de vida de cada homem. Entretanto, não podemos deixar de nos perguntar a que custo isso é efetivado.
A civilização e a modernidade trouxeram benefícios ao devir humano, mas cobraram alto preço. Não necessitamos colher e caçar nosso próprio alimento, como faziam homens e mulheres no período paleolítico, nem declarar guerra ao nosso vizinho, caso ele ouse ultrapassar as fronteiras de nosso habitat familiar ou tribal. Para nos socorrer, há todo um aparato judiciário. Entretanto, afastamo-nos cada vez mais das nossas origens modestas, numa tentativa vã de negar que somos parte da natureza e que com ela precisamos transigir. Na contemporaneidade, o fluxo incessante de novos artefatos engendrados pelo homem exaspera o próprio homem. A autora ítalo-brasileira Marina Colasanti sintetiza em um miniconto:
“Subiu no bonde voltando para casa. Morava longe, o percurso seria longo. Mas antes que tivesse alcançado sua última parada os bondes foram desativados, e sobre os trilhos foi deitado o asfalto”.
As mudanças perpassam os mais variados aspectos da vida humana. Urge não desviar o olhar daquilo que se faz gritante: as nossas crianças e adolescentes recheiam suas entranhas de fast food, repoltreadas, o dia inteiro, na frente de um computador ou ipad, entregues à fome oculta e ao sedentarismo. No entanto, não são apenas as crianças e adolescentes os que adotaram estes hábitos antinaturais e, porque não dizê-lo, demoníacos (de daemon, do grego, no sentido socrático de chamamento ao desenrolar de sua própria existência; para os antigos, diferentemente do bom, o mau daemon conduziria, chamaria, de maneira sorrateira, o homem à sua aniquilação, sem revelar-se à cognição deste). É corriqueiro ver as lojas de fast food repletas de filas de pessoas de todas as faixas-etárias, a maioria acima do peso.
É curioso que haja pessoas que adotam como objeto de interesse os mais variados temas, relegando ao esquecimento e à ignorância tudo aquilo que diz respeito à saúde, à qualidade de vida, enfim, ao contato de nosso flébil corpo com as coisas que urdem o fio de nosso ser. Interessam-se por política, assuntos jurídicos, literatura, arquitetura, moda, economia, etc., e esquecem-se do primordial: envidar todos os esforços na pesquisa e na ingestão de alimentos de vida, bem como na prática de hábitos que proporcionem tempo para aqueles outros assuntos. Nietzsche defendia uma alimentação simples e equilibrada. Ele, tampouco, negligenciava as engrenagens do organismo humano: “Os meios de que Júlio César se serviu para se defender das doenças e das dores de cabeça: grandes caminhadas, um modo de vida simplíssimo, permanência constante ao ar livre, fadigas contínuas — estas são, em grandes traços, as regras de conservação e defesa geral contra a extrema vulnerabilidade dessa máquina subtil, e que trabalha a uma altíssima pressão...” (Crepúsculo dos ídolos).
Ao defender o contato com a natureza, não me refiro apenas à prática de exercícios físicos ou qualquer atividade ao ar livre ou em local arborizado. Não estou falando de viagens, uma vez por ano, a praias paradisíacas, o que só é accessível aos abastados. Tais atitudes podem ser salutares, mas não superam o que todos nós conhecemos e aprendemos com os sábios: o homem é o que come. O filosofo ateu Ludwig Feuerbach propugnava o óbvio: a situação material em que o homem vive é que o cria. Trata-se mesmo de uma manha da natureza que parece ter validade desde o começo da vida intrauterina e até mesmo antes.
Nos primórdios da espécie humana, o homo sapiens, na sua lida de caçador-coletor, buscava a obtenção dos alimentos que lhe proporcionassem força e disposição para enfrentar as adversidades da vida selvagem. Devia saber intuitivamente que essa prática era de fundamental importância para o destino da sua tribo. Mas o homem moderno parece ter perdido, ao longo do tempo, essa inclinação. Os perigos enfrentados pelo homem civilizado são outros, mas não podemos dizer que são menos terrificantes. Violência desmedida nas cidades, doenças mentais, autoimunes e degenerativas, estresse prolongado em decorrência de profissões insalubres e escravizantes, e várias outras mazelas.
Alguém pode afirmar que o homem pré-histórico era menos dotado de satisfação do que o homem moderno, levando em conta a grande maioria da população? Pesquisas atuais, feitas inclusive com populações mais recentes de sociedades tribais, deixam entrever que nossos ancestrais provavelmente não eram acometidos das doenças degenerativas que conhecemos hoje: doença de Parkinson, mal de Alzheimer, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica e tutti quanti... Seja qual for o nível de validade de tais afirmações, certo é que, para muitos, não há castigo maior do que uma morte precedida de inúmeros males que solapem a dignidade humana, males como a depressão grave, o câncer, o acidente vascular cerebral, e outros que atingem um número expressivo da população atual.
Tendo em vista que a morte é a única certeza que temos sobre nosso devir, demonstra sabedoria aquele que se prepara para ela o quanto antes, munindo-se de todos os meios que a natureza lhe oferece, para que possa abandonar-se o mais suavemente à sua finitude, não dispensando, se assim o desejar, os meios que o homem desenvolveu, como a medicina e a tecnologia. O filósofo estoico Sêneca (4ª.C?-65 d.C), em sua  obra Da tranquilidade da alma, lançou uma questão aos timoratos dos séculos futuros: “Retornar de onde se veio, qual é o problema disso? Mal vive aquele que não sabe morrer bem.”
 O que nós vemos hoje são pessoas absolutamente despreocupadas e/ou desinformadas sobre os desdobramentos de seus hábitos. A civilização vem criando ao longo dos séculos uma gama de seres antinaturais. Desprovidos de sabedoria, imaginam poder desafiar a natureza, ou simplesmente desprezam-na. Esquecem-se de que nada mais somos do que animais, dotados de uma característica peculiar: um cérebro suficientemente grande para dar à luz uma psique, esta voltada para a criação e a invenção. Outros animais não são desprovidos de psiquismo, talvez nem mesmo de sabedoria, ainda que os etólogos chamem-na de costumes ou condicionamentos. Passarinhos não bicam certos frutos. Eles rejeitam o que lhes faz mal. E o homem? Livre dos instintos da animália, mas, como diria Sartre, preso à sua liberdade e obrigado à escolha, entrega-se a um sanduíche de fast food sem pestanejar, atraído pelo seu sabor viciante, preocupado com o restinho do tempo que tem para retornar ao trabalho. Ou ainda, põe um adoçante artificial - artificialmente produzido - no cafezinho, porque ouviu dizer que isso o deixará mais magro, sem saber que está contribuindo para desenvolver uma hipertensão em decorrência da quantidade de sódio ingerida.
As pesquisas dão conta do grande número de pessoas com deficiência de vitamina D por não receberem os afagos solares, enclausuradas em ambientes cada vez mais fechados. Os nossos ancestrais paleolíticos não sabiam o que era vitamina D, mas tinham conhecimento de que não podiam ficar refestelados numa caverna 24 horas do dia, até porque morreriam de inanição.
Não bastasse a intensa má nutrição a que é submetida a maioria dos homens contemporâneos, estes ainda estão sujeitos à frequente ingestão de aditivos químicos, usados regularmente para intensificar o sabor e a textura dos alimentos industrializados, para não falar nos conservantes e agrotóxicos. Há estudos que buscam ligar a má nutrição ao mau comportamento. Alguns desses, feitos em escolas e centros de detenção juvenil, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, sugerem que uma alimentação que elimine os aditivos e intensifique a nutrição poderia melhorar significativamente tanto o comportamento quanto o desempenho acadêmico. Podemos então imaginar o que o oposto não ocasionaria para o desenvolvimento de uma criança ou adolescente.
 Entretanto, as pessoas que dirigem o sistema de justiça criminal não se interessam pela complexidade do ser humano. Autoridades adotam medidas paliativas, elevam os patamares das penas, enviam tropas do exército para combater focos de criminalidade; mas não se dão conta de que abordagens de reabilitação criminal, assistência social, psicoterapia, terapia de grupo, psiquiatria, treinamento acadêmico e vocacional não são capazes de funcionar a menos que tenham o suporte de uma abordagem holística, na qual a nutrição esteja incluída.
O direito à alimentação foi o último direito humano social até agora implantado no art. 6º da Constituição Federal de 1988, introduzido pela Emenda Constitucional nº 64/2010. Porém, força é salientar que não se trata de um direito a uma alimentação indiscriminada. Este se desdobra em uma alimentação adequada e verdadeiramente revigorante, o que não é observado, na esmagadora maioria das vezes, a começar pelas escolas e hospitais. Inúmeros locais de tratamento, inclusive um tido como referência em São Paulo, o Hospital das Clínicas, servem adoçantes artificiais para pessoas em estado gravíssimo, quase terminal, cuja alimentação deveria ser a mais balanceada possível e isenta de aditivos químicos. A diabéticos hospitalizados são servidos pães-seda, torradas industrializadas, todos feitos com farinha de trigo refinada, que faz esvoaçar a glicemia às alturas. Governantes e contribuintes preferem gastar os tubos com medicamentos, exames, internações, mão de obra em cirurgias, do que investir no primordial. Eles negligenciam o phenomenon, obnubilados que estão pelo noumenon, como diriam os filósofos estoicos. Os sistemas semióticos, as ideologias e o arcabouço socioeconômico atuais, neste incluídos os interesses ligados à indústria farmacêutica, perpetuam tal situação.
Definitivamente, não é essa a vida longa que queremos para a nossa espécie. Uma existência relegada aos prazeres fugazes e antinaturais, ao automatismo, à degeneração e, por fim, ao sofrimento intenso e prorrogado por máquinas ou pela engenharia genética. Estamos enfrentando a mais tenebrosa das selvas. Tudo, em nossa época, nos leva a fazer com que este ato civilizado por excelência, uma refeição alegre e polida com companheiros humanos, não seja precedido de um cortês “bom apetite”, mas sim de um irônico “boa sorte”. 



Se observares que o universo o esqueceu, tente lembrar há quanto tempo e por quais causas você se afastou dele. Tal reflexão, embora não seja garantia de regresso, é a única porta para um possível retorno de si mesmo. (Adlla Rijo)

domingo, 18 de outubro de 2015

TEMÁTICA

Este blog tem o propósito de registrar alguns escritos de minha autoria relacionados a temas filosóficos e à produção literária como um todo, bem como acrescentar dicas de leitura nessas áreas. Sejam bem vindos!