Adlla Rijo
Quando acordei, meu jambeiro não estava mais lá. Digo meu porque, embora ficasse no interior da propriedade de outra pessoa, em frente ao meu edifício, sua visão era uma das primeiras que tinha ao acordar, quando me dirigia ao terraço para agradecer por mais um dia. Desde que aqui vim morar, há vinte e três anos, via-o e reverenciava-o todos os dias.
Ele era lindo! Verdejante, frondoso, majestoso mesmo! E estava lá todos os dias para me dizer, ao lado do sol, que o dia começou. Quando eu era menina, e dormia na casa da minha avó Beatriz, era o galo quem me acordava com seu canto, mas naquela época as pessoas criavam galos e galinhas no quintal. Hoje o som que podemos ouvir dos nossos prédios são a barulheira dos motores de ônibus e de carros apressados e fumarentos.
Ao me dar conta de sua ausência, quando levantei, a primeira reação que tive foi chorar convulsivamente. Chorar a sua falta, o seu “não mais existir”, a sua dor solitária. Em seguida veio-me a revolta por sua extirpação. Ainda mais porque considero que uma planta desse porte, com tanta história pra contar, não tem dono. Elas podem cativar qualquer um que cultive o amor. E tudo isso para construir, no terreno onde ela se encontrava, uma galeria; certamente, para abrigar lojas... É só o que se vê hoje em dia. Pessoas preocupadas em comprar, vender e comprar. No mundo em que vivemos, cada vez mais, as árvores têm que dar lugar ao universo do consumo.
Os homens, em sua maioria, são assim. Preferem a frieza artificial de um ambiente inanimado e de concreto do que a beleza e a vivacidade da natureza. Nem mesmo se dão conta de que as plantas lhes concedem oxigênio e purificam o nosso ar, já tão carregado de impurezas. Pouquíssimas são as árvores que se podem contar na minha localidade. E olhem que moro num dos bairros nobres de Maceió.
Lembro-me de que uma vez, há muito tempo, chegaram a cortar a minha árvore, deixando-a quase no toco, mas ela queria muito viver e, contrariando o que muitos pensavam, ela cresceu novamente. Entretanto, agora é diferente. Certificaram-se de arrancar da terra todas as suas raízes. Homens não têm escrúpulos!, nem mesmo consigo próprios, quando o mote é sua inserção na roda incessante do capital.
Morreu calado o meu jambeiro; silencioso como sempre foi. Mas o vácuo, a dor fantasma que deixou na vista de minha varanda, e em minha alma, grita estridentemente em meu ser.