terça-feira, 20 de outubro de 2015

O DOGMA FEMININO


       Sempre carreguei um dogma comigo. Quase uma cláusula pétrea, como se costuma dizer em jargão jurídico. Nunca soube se isso era bom ou ruim, se mais ajudava ou atrapalhava, mas foi este preceito que aprendi de minha mãe: “Uma mulher nunca deve dar o primeiro passo para fisgar um homem; nunca deve oferecer-se a um sujeito. Pode, sim, dar os sinais de que ela o deseja, mas jamais tomar a iniciativa. Isso é papel do varão”. Parece machista? Talvez. Mas todos hão de concordar que é difícil livrar-se de tais dogmas do culto de Afrodite. A respeito disso, tenho uma história para contar, que a mim parece de complexa elucidação. Vamos a ela.
Em Aracaju, no mês de maio de 2008, imbuída do propósito de ficar mais bela, como faz boa parte das mulheres de hoje em dia, resolvi submeter-me, com o apoio de meu marido, a uma cirurgia plástica para suspensão das mamas e colocação de próteses de silicone. É! A tal da mamoplastia! A cirurgia correu bem. Não houve complicação alguma com a anestesia ou qualquer evento que me levasse ao arrependimento; a não ser um que, entretanto, não diz respeito às mamas, mas à minha paz espiritual: apaixonei-me perdidamente pelo “escultor” de meus seios, meu cirurgião. Não sei exatamente em que trecho do caminho eu me perdi. Simplesmente, quando dei por mim, estava absolutamente enlaçada e presa na esparrela da paixão.
Ressalte-se que todas as variáveis envolvidas contribuíram para esse resultado, e penso que não havia mesmo maneira de serem as coisas de forma diversa. Eu me sentia sozinha há cerca de um mês. Sozinha quer dizer: negligenciada por meu marido, como uma adolescente sem rolo e sem ficante! O médico era um belo homem de 58 anos, cuja aparência era de 50, que tinha um sorriso puro e os olhos mais doces e penetrantes que já vi em toda a minha vida, “olhos castanhos de encantos tamanhos”, como falava uma canção que tanto ouvira na minha infância. Assevero, mesmo, como esposa de um jovem Desembargador recém-empossado, que deveria ser terminantemente proscrito um homem tão lindo e refinado exercer o mister de cirurgião plástico, ainda mais sendo divorciado, como era o caso. 
A cirurgia durou cerca de 4 horas e, algum tempo depois, eu já estava repousando no quarto do hospital. À noite, ele foi me ver; disse que eu me encontrava mal posicionada na cama e ajeitou-me com tal desvelo, com a ajuda do meu marido, que eu não pude deixar de oferecer-lhe um sorriso malicioso na hora em que estava retirando-se. Ele apenas me olhou com um discreto espanto complacente.
Entretanto, o que havia de mais crítico eram as tais das “revisões”. Periodicamente, eu deveria ir ao consultório para que ele examinasse meus peitos, com o objetivo de saber se tudo estava no lugar. Modéstia à parte, eles ficaram lindos, duas peras rijas, alvas e suculentas, cuja dona também não deixava nada a desejar, apesar de já ser uma jovem loba. Olhos grandes e negros, assim como cabelos volumosos e longos da mesma tonalidade, contrastavam com uma pele clara, que dava forma a um corpo escultural, a começar pela cintura de vespa, ou de pilão, como se diz no Nordeste. Não bastasse isso, a cada dia, eu me fazia mais vistosa e logo que pude usar uma lingerie mais sensual, não titubeei, para o prazer de meu marido, que, em meio às suas atarefadas idas e vindas do Tribunal de Justiça, foi tomado de um surto de virilidade.
Para demonstrar o quanto eu ficara satisfeita com o desfecho da cirurgia, resolvi dar a meu médico um presente e, para tal propósito, considerei que nada seria melhor do que um livro, na primeira página do qual redigi uma dedicatória, assim escrita de próprio punho:
“Para dr. Fernando,
uma pequena lembrança para o mais 
nobre dos artistas: aquele que faz verdadeiras 
obras de arte em matéria viva.
Com admiração.
Catherine.”
Ao entregar o livro, vi que ele leu atentamente a dedicatória. Percebi a sua perturbação. Eu havia conseguido abalá-lo! Ele parecia olhar-me como quem dizia: “Ah! Se tudo tivesse acontecido em outras circunstâncias...”.  Trocando em miúdos: “Ah! Como seria bom se a tivesse conhecido fora do consultório...”. Entrementes, ele me disse que não iria atender no início do próximo mês, pois seria o seu aniversário. Ah! Como me senti prestigiada ao ser digna de saber o dia do aniversário dele! Na saída, ainda me deu dois beijinhos.
Antes do seu aniversário, necessitei de uma revisão extra. Havia surgido um pequeno ponto infeccionado na mama esquerda; nada grave. Fiquei aguardando na saleta de exames, deitada numa maca, nua da cintura para cima, com uma calça colada ao corpo, de couro, cor de vinho, e sapatos altos, fingindo ler um livro, cujo título eu tentei esconder logo que ele entrou, pois se tratava d’O mundo do sexo, de Henry Miller. Nessa ocasião, ele se mostrou enormemente receptivo e disse que havia começado a ler o livro que eu lhe dera, cujo título era Da tranquilidade da alma. Conversamos, então, por alguns minutos.
- Minha cara, estava caminhando no calçadão da praia, ontem à noite, e lembrei que você tinha dito que caminhava na areia; então, como estava tudo iluminado, fui lá caminhar também... – disse ele empolgado.
- Ah! É muito melhor caminhar na areia da praia, eu adoro, mas tenho receio de fazer isso à noite. Prefiro de manhãzinha.
- É, sozinha eu não recomendo...
- É, acho perigoso.
- É, sozinha eu não recomendo...
Findo o exame, ele me ajudou a vestir minha blusa e se despediu assumindo um ar professoral, cuja razão não entendi.
 - Tome o seu livrinho, até mais – disse ele.
Somente quando saí do consultório é que me dei conta da provável estupidez que eu havia cometido.  É claro que ele falou em caminhar na areia à noite para estar comigo num lugar mais reservado. Essa seria a única forma de programarmos um encontro supostamente desinteressado. Como pude ser tão estúpida? Mas depois me veio a indagação: o que ele pretendia? Um encontro fortuito? Uma saída ocasional? Uma noite apenas?
Achei por bem não telefonar no dia do seu aniversário; afinal, eu não era nada mais que uma paciente dentre as outras, todas apaixonadas por ele. Resolvi então mandar uma mensagem pelo celular, parabenizando-o. Pouco tempo depois, recebi dele um torpedo que me agradecia e me mandava um abraço.
Na revisão seguinte, já estava sem fôlego de tanta vontade de reencontrá-lo e pensava: “Tanta espera por tão poucos minutos”. No entanto, o mais inusitado vocês não sabem. Como aquele livro que eu lhe dera não fora comprado com o objetivo de presenteá-lo no seu aniversário, resolvi fazer-lhe outro agrado, até mesmo para tentar reparar a minha falta de bom senso na revisão anterior. Comprei-lhe uma cesta de guloseimas naturais, acompanhadas de um vinho argentino, um Malbec, Joffré e hijas Premium, safra 2002, que não tive coragem de entregar pessoalmente, mas que deixei com a sua atendente, para que lhe entregasse somente no final do expediente, conforme tornei bem claro. 
Durante a consulta, a sua assistente saiu da sala, então procurei travar com ele o máximo de conversa possível, mas logo ela retornou, e ele pareceu tão monossilábico e tecnicista que saí de lá destruída. Parecia que ele estava ali apenas para cumprir uma obrigação profissional! Cheguei mesmo a chorar quando entrei no meu carro. O que minha consciência dizia era: “Como você foi tola ao desperdiçar seu tempo e sua energia nessa empreitada! Logo, ele rirá de você, pois perceberá os seus sentimentos quando receber a cesta”.
Por volta das 19 horas, ele me mandou uma mensagem, cujo teor era o seguinte:
“Oi Caterine! Muitíssimo obrigado mais uma vez. Só em dizer que está contente com o resultado já é um grande presente. Agora tem que ser um Abraço especial.
Fernando.”
A primeira coisa que observei é que ele tinha errado a grafia do meu nome. Supus que nunca houvera prestado atenção na dedicatória do livro que eu lhe havia dado. Também me perguntei o porquê de ele não ter telefonado, mas apenas enviado uma simples mensagem. Entretanto, o final do texto me deixou desesperadamente intrigada: “Agora tem que ser um Abraço especial.” O que significava aquilo? Se é que significava alguma coisa. Fui tomada por um desejo insidioso e provavelmente delirante de devolver-lhe a mensagem, apenas perguntando: “Onde pode ser?”, ou simplesmente: “Where?”. Mas, como sempre foi da minha índole, contive-me. Considerando a forma como saí de lá na última consulta, preponderou o fato de ele não ter telefonado, mas apenas mandado um torpedo. Certamente quer manter distância.
Embora meu eletrocardiograma pré-operatório tenha apontado uma excelente condição cardíaca, fiquei a ponto de ter um infarto quando, no dia seguinte, vi no meu celular que havia uma ligação dele. Mas, assim que chequei na agenda do aparelho, constatei que era uma ligação do telefone fixo do consultório, e não do celular. Mesmo assim, minha dúvida tomou proporções oceânicas e logo tratei de ligar de volta. A atendente, com uma voz matizada de desconfiança, não sei se por mera distorção do meu espírito açodado, disse-me que o Doutor queria falar comigo e lhe passou a ligação. 
- Alô
- Oi, dr. Fernando. Como vai? – Perguntei, com um tom tímido. 
- Bem, Obrigado. Liguei para agradecer o presente. Gostei muito.
- É, eu vi a mensagem – balbuciei com uma voz hesitante.
-Viu?
- Vi...
 - Eram castanhas?
- Sim, castanhas e nozes.
- Já comi algumas, mas o vinho eu vou tomar este final de semana...
 Fiquei muda por um instante pensando nessa frase, mas a única coisa que esvoaçou da minha boca foi:
 - Espero que goste.
Em seguida, sua voz ressoou com a frieza de uma crosta de gelo dos Andes quando ele se despediu e desligou o telefone.
Passei vários dias pensando nisso. Acordava perguntando-me se essa frase não seria uma isca para que eu a fisgasse e dissesse: “Podemos tomar juntos?” Ah! Como eu queria ser fisgada por ele! Mas, a meu ver, dizer aquilo seria muito descaramento para uma mulher. Eu já tinha feito a minha parte. Já tinha demonstrado que ele era importante para mim. Era ele, como homem, quem tinha de perguntar: “Será que podemos tomar juntos? Como amigos, é claro”.
Entre esse episódio e a consulta posterior, que seria a última, passaram-se dois infindáveis meses. Preparei-me como de costume: malhação, depilação, design de sobrancelha, banho de lua, esfoliação, hidratação e, por fim, cabelos, unhas e maquiagem. Coloquei as roupas cujas formas me concediam o máximo de sobriedade, elegância e, ao mesmo tempo, sensualidade. Não sei bem para quê, pois quando ele entrou na saleta de exames, eu já estava com o torso nu e ofegante, segurando um paninho para cobrir meus seios. 
- Quanto tempo!... - disse ele, esboçando aquele sorriso magnífico. - Essas revisões deviam ocorrer mais vezes.
Não acreditei bem no que estava ouvindo; refiro-me à última frase. Achei que podia ser uma espécie de alucinação auditiva. Então, respondi, atordoada e com a desenvoltura comprometida:
- É, foram dois meses.
Em seguida, ele apalpou minha cicatriz, dizendo que ela estava muito boa, pois apesar de vermelha, não estava grossa. Perguntei, então, se eu já podia fazer exercícios que mexessem com o peitoral, ao que ele respondeu que, por enquanto, não; só quando se completassem seis meses de cirurgia.
- Ah! Pensei que já poderia fazer abdominal infra, pendurada na barra. - Falei manhosa, para puxar mais conversa.
- Como é esse exercício? Mostre-me, para que eu lhe diga se você pode ou não fazer.
Então, levantei bem os braços, simulando o tal exercício, inclinando um pouco meu corpo para frente e livrando-me, felizmente, do tal paninho que eu até então segurava. Tudo para que ele visse bem o quanto eu estava em forma. Eu não queria com ele nada menos do que tudo. Faria qualquer coisa por aquele homem. Submeter-me-ia, com elevada satisfação e garantia de absoluto e perpétuo sigilo, a qualquer um dos seus desejos mais lascivos e até mesmo aos mais doidivanas, se os tivesse.
Acontece que, no decorrer do exame, percebi que ele foi ficando um tanto impaciente, como se quisesse sair logo dali, o que suscitou em mim as mais diversas fantasias; e antes que não o visse nunca mais, apressei-me em falar.
- Você gostou do vinho?
Com uma caramunha dantesca, impressa de seriedade e rigidez, e já saindo da sala, ele respondeu secamente:
 - Gostei.
Notei que não agradecera no momento, o que me pareceu indelicado e destoante, mormente considerando tratar-se de um homem educado. Mas, após já ter saído da sala e fechado a porta, abriu-a novamente perguntando, com a mesma frieza: 
- Eu mandei uma mensagem agradecendo, não mandei?
- Sim, mandou... E ligou no dia seguinte – respondi automaticamente, com um semblante bastante descabreado, tentando não dar à minha voz um tom revelador. 
Dito isso, vocês não podem imaginar qual foi a minha surpresa ao ver aquela inabalável coluna dórica do Panteão médico sergipano desabar subitamente porta adentro na minha frente, com o rosto mais rubicundo do que um tomate maduro. Vi-me aterrorizada com a cena, quando passado o primeiro impacto, apressei-me em socorrê-lo e gritar por ajuda. Porém, à medida que os segundos se passavam, fui dando-me conta de que algo muitíssimo grave estava acontecendo, pois nem a respiração boca a boca, nem as bruscas massagens que fiz em seu peito adiantavam. Ele sofrera um infarto fulminante e, em pouquíssimos minutos, percebi que meus esforços eram vãos. Todos os sinais vitais haviam-se esvaído. Não havia mais pulsação.
 A partir daí, entreguei-me ao desespero e passei a sacudi-lo inutilmente, chorando e indagando, em vagidos altíssonos, em frente das pessoas que já estavam na saleta e a tudo assistiam:
- Por que ficou tão abalado? Sente alguma coisa por mim? O que pretendia comigo? Diga!!! Diga!!! Diga!!!
Ao me verem naquela situação, todos, incluindo a atendente, a assistente e os pacientes, olhavam-me com a certeza de que eu havia surtado ou de que eles próprios participavam dum estranho fenômeno alucinógeno coletivo.
Foi esse o último contato que tive com aquele homem que eu desejava com toda a candura da minha alma e com os mais libertinos propósitos. Naquele instante, minha paixão estava no seu ápice, flutuando no céu dos arrebatamentos amorosos.
A par dos acontecimentos, e assegurando-lhes, caros leitores, que o fato ocorreu exatamente como narrado, deixo a vocês a incumbência de desvendar se, de fato, havia interesse da parte dele ou se tudo não passou de puro devaneio de minha mente, sempre tão criativa. Meu marido parece compartilhar dessa última opinião, visto que está bastante feliz em pagar-me, agora, uma psicanálise.

De qualquer forma, é certo que, diante das circunstâncias, meu cirurgião não podia, nem na sua prévia condição de médico conceituado, nem no seu novo status de finado cavaleiro, cortejar-me abertamente. Não podia tomar a iniciativa. Quanto a mim, mulher madura, de razoável experiência, desenfreadamente apaixonada e, ainda por cima, siliconada, esbarrei e esborrachei-me no dogma feminino... com silicone e tudo!

Imagem: Google

Nenhum comentário:

Postar um comentário