Os jornais não cansam de noticiar o aumento da expectativa de vida do brasileiro a cada ano, assim como em outros países latino-americanos. A expectativa de vida do brasileiro aumentou 11,24 anos de 1980 (62,52 anos) a 2010 (73,76 anos). Segundo o IBGE (Tábuas de Mortalidade 2010 – Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação), nosso país ocupa o 91º lugar no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre expectativa de vida. O Chile está na 34ª posição e a Argentina, na 59ª. No grupo Brics (formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o país fica atrás apenas da China (70º). Depois do Brasil, estão Rússia (134º), Índia (149º) e África do Sul (179º).
Tais pesquisas parecem animadoras quando observadas em termos de números, mas escondem uma realidade bem menos exitosa quando se questiona a qualidade de vida de nossos idosos. Afinal, não faz sentido prolongar o tempo de existência biológica, sem conferir aos anos remanescentes vitalidade e vigor.
É certo que a medicina e os fármacos tornaram-se reveladores do ser, e tal circunstância, aliada às revoluções tecnológicas, vem permitindo um aumento considerável do percurso de vida de cada homem. Entretanto, não podemos deixar de nos perguntar a que custo isso é efetivado.
A civilização e a modernidade trouxeram benefícios ao devir humano, mas cobraram alto preço. Não necessitamos colher e caçar nosso próprio alimento, como faziam homens e mulheres no período paleolítico, nem declarar guerra ao nosso vizinho, caso ele ouse ultrapassar as fronteiras de nosso habitat familiar ou tribal. Para nos socorrer, há todo um aparato judiciário. Entretanto, afastamo-nos cada vez mais das nossas origens modestas, numa tentativa vã de negar que somos parte da natureza e que com ela precisamos transigir. Na contemporaneidade, o fluxo incessante de novos artefatos engendrados pelo homem exaspera o próprio homem. A autora ítalo-brasileira Marina Colasanti sintetiza em um miniconto:
“Subiu no bonde voltando para casa. Morava longe, o percurso seria longo. Mas antes que tivesse alcançado sua última parada os bondes foram desativados, e sobre os trilhos foi deitado o asfalto”.
As mudanças perpassam os mais variados aspectos da vida humana. Urge não desviar o olhar daquilo que se faz gritante: as nossas crianças e adolescentes recheiam suas entranhas de fast food, repoltreadas, o dia inteiro, na frente de um computador ou ipad, entregues à fome oculta e ao sedentarismo. No entanto, não são apenas as crianças e adolescentes os que adotaram estes hábitos antinaturais e, porque não dizê-lo, demoníacos (de daemon, do grego, no sentido socrático de chamamento ao desenrolar de sua própria existência; para os antigos, diferentemente do bom, o mau daemon conduziria, chamaria, de maneira sorrateira, o homem à sua aniquilação, sem revelar-se à cognição deste). É corriqueiro ver as lojas de fast food repletas de filas de pessoas de todas as faixas-etárias, a maioria acima do peso.
É curioso que haja pessoas que adotam como objeto de interesse os mais variados temas, relegando ao esquecimento e à ignorância tudo aquilo que diz respeito à saúde, à qualidade de vida, enfim, ao contato de nosso flébil corpo com as coisas que urdem o fio de nosso ser. Interessam-se por política, assuntos jurídicos, literatura, arquitetura, moda, economia, etc., e esquecem-se do primordial: envidar todos os esforços na pesquisa e na ingestão de alimentos de vida, bem como na prática de hábitos que proporcionem tempo para aqueles outros assuntos. Nietzsche defendia uma alimentação simples e equilibrada. Ele, tampouco, negligenciava as engrenagens do organismo humano: “Os meios de que Júlio César se serviu para se defender das doenças e das dores de cabeça: grandes caminhadas, um modo de vida simplíssimo, permanência constante ao ar livre, fadigas contínuas — estas são, em grandes traços, as regras de conservação e defesa geral contra a extrema vulnerabilidade dessa máquina subtil, e que trabalha a uma altíssima pressão...” (Crepúsculo dos ídolos).
Ao defender o contato com a natureza, não me refiro apenas à prática de exercícios físicos ou qualquer atividade ao ar livre ou em local arborizado. Não estou falando de viagens, uma vez por ano, a praias paradisíacas, o que só é accessível aos abastados. Tais atitudes podem ser salutares, mas não superam o que todos nós conhecemos e aprendemos com os sábios: o homem é o que come. O filosofo ateu Ludwig Feuerbach propugnava o óbvio: a situação material em que o homem vive é que o cria. Trata-se mesmo de uma manha da natureza que parece ter validade desde o começo da vida intrauterina e até mesmo antes.
Nos primórdios da espécie humana, o homo sapiens, na sua lida de caçador-coletor, buscava a obtenção dos alimentos que lhe proporcionassem força e disposição para enfrentar as adversidades da vida selvagem. Devia saber intuitivamente que essa prática era de fundamental importância para o destino da sua tribo. Mas o homem moderno parece ter perdido, ao longo do tempo, essa inclinação. Os perigos enfrentados pelo homem civilizado são outros, mas não podemos dizer que são menos terrificantes. Violência desmedida nas cidades, doenças mentais, autoimunes e degenerativas, estresse prolongado em decorrência de profissões insalubres e escravizantes, e várias outras mazelas.
Alguém pode afirmar que o homem pré-histórico era menos dotado de satisfação do que o homem moderno, levando em conta a grande maioria da população? Pesquisas atuais, feitas inclusive com populações mais recentes de sociedades tribais, deixam entrever que nossos ancestrais provavelmente não eram acometidos das doenças degenerativas que conhecemos hoje: doença de Parkinson, mal de Alzheimer, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica e tutti quanti... Seja qual for o nível de validade de tais afirmações, certo é que, para muitos, não há castigo maior do que uma morte precedida de inúmeros males que solapem a dignidade humana, males como a depressão grave, o câncer, o acidente vascular cerebral, e outros que atingem um número expressivo da população atual.
Tendo em vista que a morte é a única certeza que temos sobre nosso devir, demonstra sabedoria aquele que se prepara para ela o quanto antes, munindo-se de todos os meios que a natureza lhe oferece, para que possa abandonar-se o mais suavemente à sua finitude, não dispensando, se assim o desejar, os meios que o homem desenvolveu, como a medicina e a tecnologia. O filósofo estoico Sêneca (4ª.C?-65 d.C), em sua obra Da tranquilidade da alma, lançou uma questão aos timoratos dos séculos futuros: “Retornar de onde se veio, qual é o problema disso? Mal vive aquele que não sabe morrer bem.”
O que nós vemos hoje são pessoas absolutamente despreocupadas e/ou desinformadas sobre os desdobramentos de seus hábitos. A civilização vem criando ao longo dos séculos uma gama de seres antinaturais. Desprovidos de sabedoria, imaginam poder desafiar a natureza, ou simplesmente desprezam-na. Esquecem-se de que nada mais somos do que animais, dotados de uma característica peculiar: um cérebro suficientemente grande para dar à luz uma psique, esta voltada para a criação e a invenção. Outros animais não são desprovidos de psiquismo, talvez nem mesmo de sabedoria, ainda que os etólogos chamem-na de costumes ou condicionamentos. Passarinhos não bicam certos frutos. Eles rejeitam o que lhes faz mal. E o homem? Livre dos instintos da animália, mas, como diria Sartre, preso à sua liberdade e obrigado à escolha, entrega-se a um sanduíche de fast food sem pestanejar, atraído pelo seu sabor viciante, preocupado com o restinho do tempo que tem para retornar ao trabalho. Ou ainda, põe um adoçante artificial - artificialmente produzido - no cafezinho, porque ouviu dizer que isso o deixará mais magro, sem saber que está contribuindo para desenvolver uma hipertensão em decorrência da quantidade de sódio ingerida.
As pesquisas dão conta do grande número de pessoas com deficiência de vitamina D por não receberem os afagos solares, enclausuradas em ambientes cada vez mais fechados. Os nossos ancestrais paleolíticos não sabiam o que era vitamina D, mas tinham conhecimento de que não podiam ficar refestelados numa caverna 24 horas do dia, até porque morreriam de inanição.
Não bastasse a intensa má nutrição a que é submetida a maioria dos homens contemporâneos, estes ainda estão sujeitos à frequente ingestão de aditivos químicos, usados regularmente para intensificar o sabor e a textura dos alimentos industrializados, para não falar nos conservantes e agrotóxicos. Há estudos que buscam ligar a má nutrição ao mau comportamento. Alguns desses, feitos em escolas e centros de detenção juvenil, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, sugerem que uma alimentação que elimine os aditivos e intensifique a nutrição poderia melhorar significativamente tanto o comportamento quanto o desempenho acadêmico. Podemos então imaginar o que o oposto não ocasionaria para o desenvolvimento de uma criança ou adolescente.
Entretanto, as pessoas que dirigem o sistema de justiça criminal não se interessam pela complexidade do ser humano. Autoridades adotam medidas paliativas, elevam os patamares das penas, enviam tropas do exército para combater focos de criminalidade; mas não se dão conta de que abordagens de reabilitação criminal, assistência social, psicoterapia, terapia de grupo, psiquiatria, treinamento acadêmico e vocacional não são capazes de funcionar a menos que tenham o suporte de uma abordagem holística, na qual a nutrição esteja incluída.
Entretanto, as pessoas que dirigem o sistema de justiça criminal não se interessam pela complexidade do ser humano. Autoridades adotam medidas paliativas, elevam os patamares das penas, enviam tropas do exército para combater focos de criminalidade; mas não se dão conta de que abordagens de reabilitação criminal, assistência social, psicoterapia, terapia de grupo, psiquiatria, treinamento acadêmico e vocacional não são capazes de funcionar a menos que tenham o suporte de uma abordagem holística, na qual a nutrição esteja incluída.
O direito à alimentação foi o último direito humano social até agora implantado no art. 6º da Constituição Federal de 1988, introduzido pela Emenda Constitucional nº 64/2010. Porém, força é salientar que não se trata de um direito a uma alimentação indiscriminada. Este se desdobra em uma alimentação adequada e verdadeiramente revigorante, o que não é observado, na esmagadora maioria das vezes, a começar pelas escolas e hospitais. Inúmeros locais de tratamento, inclusive um tido como referência em São Paulo, o Hospital das Clínicas, servem adoçantes artificiais para pessoas em estado gravíssimo, quase terminal, cuja alimentação deveria ser a mais balanceada possível e isenta de aditivos químicos. A diabéticos hospitalizados são servidos pães-seda, torradas industrializadas, todos feitos com farinha de trigo refinada, que faz esvoaçar a glicemia às alturas. Governantes e contribuintes preferem gastar os tubos com medicamentos, exames, internações, mão de obra em cirurgias, do que investir no primordial. Eles negligenciam o phenomenon, obnubilados que estão pelo noumenon, como diriam os filósofos estoicos. Os sistemas semióticos, as ideologias e o arcabouço socioeconômico atuais, neste incluídos os interesses ligados à indústria farmacêutica, perpetuam tal situação.
Definitivamente, não é essa a vida longa que queremos para a nossa espécie. Uma existência relegada aos prazeres fugazes e antinaturais, ao automatismo, à degeneração e, por fim, ao sofrimento intenso e prorrogado por máquinas ou pela engenharia genética. Estamos enfrentando a mais tenebrosa das selvas. Tudo, em nossa época, nos leva a fazer com que este ato civilizado por excelência, uma refeição alegre e polida com companheiros humanos, não seja precedido de um cortês “bom apetite”, mas sim de um irônico “boa sorte”.
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