A armação da tecnologia
Adlla Rijo
Era outono, tempo de uma reflexão ainda mais premente.
- Filha, antes eu não tinha uma ideia formada sobre qual o sistema de governo mais justo para a humanidade, mas pensando bem sobre a natureza e seus recursos, acredito hoje que, para evitar uma catástrofe anunciada no nosso planeta, o melhor seria a adoção de um sistema com bases socialistas; afinal, o capitalismo sempre incentivará não só a desigualdade, mas também a produção e o consumo excessivos. Isso compromete cada vez mais o meio ambiente. Você não acha que as pessoas estão cada vez mais automatizadas?
- Hã?! Quê? Não pai! - retrucou a mocinha longilínea, com ar de distração e os bugalhos vidrados no computador - , não acho que a melhor solução para o homem seja frear a evolução humana.
- Evolução?! Você acha mesmo que estamos caminhando para uma evolução? O que penso, filha, é que a humanidade, além de toda a tralha artificial que carrega, se tornou uma verdadeira praga, gerando desequilíbrio e instabilidade a este planeta. Algo que desemboca numa catástrofe não pode ser chamado de evolução!
- Mas quem disse que isso vai acontecer, pai?! São meras especulações!
- Não filha, são constatações progressivas. O desequilíbrio é extremamente visível.
- Ainda que seja, mas a preocupação com o meio ambiente e essa história de sustentablidade é algo recente. Talvez haja muito exagero nessas previsões. Isso não havia antes!
- Exatamente porque antes os danos não eram tão aparentes, ou não existiam na mesma proporção. De uns tempos pra cá, a derrocada tem se dado em progressão geométrica. Penso que a única maneira de evitar um cataclismo, o dilúvio final, é através da implantação de uma ditadura; porém uma ditadura bem intencionada, e o que é mais difícil: uma ditadura planetária! E isso, provavelmente, só vai acontecer quando a terra estiver na iminência de um estrago completo e irremediável, capaz de comprometer definitivamente os recursos vitais ao ser humano! Sei que quando isso ocorrer não estaremos mais neste mundo, mas eu não pretendo continuar com esse discurso de que “o capitalismo é o melhor”, de que “não podemos frear a nossa evolução”. Pretendo, sim, ser parte ativa na busca de contenção dessa tragédia sem precedentes. E você filha? - Tendo como resposta o silêncio, o pai insistiu, discretamente contrariado: - Hei!, vê se larga esse computador, filha!... Responde!
Alheia à pergunta, após obtê-la novamente do pai, manifestou-se:
- Eu..., hum...pode ser... Mas, já tenho muita coisa pra pensar... Só se não for dar muito trabalho...
- Sei...Querida, cadê seu namorado, nunca mais o vi por aqui? Vocês não se falam mais?
- Se liga, pai?! Nos falamos todo dia pelo face. Você sabe que ele mora longe, e o trânsito de lá pra cá não é moleza. Você ainda não sabe que se pode namorar à distância?!
- Filha, já são dez da manhã e você nem abriu ainda a janela do seu quarto! Nós não combinamos de ir à praia? Hoje é domingo, lembra? Puxa...o tempo parece fechado! Por favor, abra a janela pra gente ver se vai chover.
- Ué!, pai, não precisa! - disse a jovenzinha impaciente e resoluta - Eu olho aqui pelo meu aplicativo... - E prosseguiu, mais desanimada do que espantada - Com mil demônios!, aqui diz que o dia vai ser de sol!
- Então, vamos à praia?
- Desculpa, pai, mas hoje eu tô mais a fim de ver outras paisagens...
- É mesmo? E aonde quer ir?
- A lugar nenhum, pai, vou ver outras paisagens aqui mesmo no meu notebook. Aliás, pode me deixar um pouquinho sossegada?!
Ao pai, desolado, restou apenas um desabafo; pura manifestação do inconformismo dos não totalmente enquadrados na armação:
- Pelas barbas de Prometeu! Pra que nos concedeu o fogo divino?! É o apocalipse!!!

Nenhum comentário:
Postar um comentário