Adlla Rijo
Quando os amantes não falam a mesma língua não cabe lamentar o "amor" perdido. Ele é apenas mais um evento da Lua, e como tal, passageiro. Esse satélite natural também é mulher, cujo ciclo tem duração praticamente igual ao nosso, e nunca esquece que o fundamental é não parar de dançar. Conhece como ninguém os elementos da vida: movimento e interação; e jamais abdica de sua missão junto ao mar, à natureza e aos bichos.
Eu também vivenciei essas relações cercadas de incompreensão, cujo dialeto do outro é absolutamente desconhecido para nós, assim como o nosso com relação a ele. A manutenção desse impasse ocasionado pela disparidade de ideias e projetos é mais do que nociva, podendo comprometer seriamente nossa saúde como um todo. Afinal, nesses casos, das duas uma: para satisfazer esse alguém nos despojamos de parte de nossa identidade; ou, nos aproveitando do sentimento de paixão do outro, ignoramos sua linguagem e seus desejos, impondo-lhe os nossos. O resultado em ambas as hipóteses é catastrófico para a relação.
Com relação a isso, posso lhes contar um fato corriqueiro que acendeu em mim uma luz penetrante e libertadora. A iluminação propícia a uma visão nítida da existência e da importância de olharmos primeiro para nós mesmos. Como ainda estou sob os efeitos de uma relação gerada numa torre de Babel, eu diria que esse episódio poderia ser definido como aquilo que Carl Jung chama de sincronicidade.
Hoje ao caminhar na praia, deparei-me com um peixinho amarelo-dourado que, ainda vivo, debatia-se de forma intermitente na areia. Ao me aproximar, tentei por três vezes devolvê-lo ao mar, sem sucesso. Ele olhava para mim como se não compreendesse o que eu estava fazendo. Da terceira vez caminhei bastante na água, rumo ao oceano, para me certificar de que as ondas não o levariam de volta à areia. Contudo, para minha tristeza, percebi que mesmo assim ele não reagia. Não conseguia imergir, nem nadar! A partir daí algo me disse que eu deveria parar com essa tentativa infrutífera porque, na verdade, com a minha insistência, eu só estava protelando seu sofrimento. Por alguma razão para mim desconhecida, ele havia se perdido definitivamente do seu habitat.
Desapegar-se daquilo que tem o condão de unicamente nos fazer sofrer é ato de amor e sabedoria. Aquele peixinho, percebi através de seu olhar, sabia disso antes de mim!

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