sábado, 9 de julho de 2016

MEU JAMBEIRO SE FOI

Adlla Rijo





Quando acordei, meu jambeiro não estava mais lá. Digo meu porque, embora ficasse no interior da propriedade de outra pessoa, em frente ao meu edifício, sua visão era uma das primeiras que tinha ao acordar, quando me dirigia ao terraço para agradecer por mais um dia. Desde que aqui vim morar, há vinte e três anos, via-o e reverenciava-o todos os dias.

Ele era lindo! Verdejante, frondoso, majestoso mesmo! E estava lá todos os dias para me dizer, ao lado do sol, que o dia começou. Quando eu era menina, e dormia na casa da minha avó Beatriz, era o galo quem me acordava com seu canto, mas naquela época as pessoas criavam galos e galinhas no quintal. Hoje o som que podemos ouvir dos nossos prédios são a barulheira dos motores de ônibus e de carros apressados e fumarentos.

Ao me dar conta de sua ausência, quando levantei, a primeira reação que tive foi chorar convulsivamente. Chorar a sua falta, o seu “não mais existir”, a sua dor solitária. Em seguida veio-me a revolta por sua extirpação. Ainda mais porque considero que uma planta desse porte, com tanta história pra contar, não tem dono. Elas podem cativar qualquer um que cultive o amor. E tudo isso para construir, no terreno onde ela se encontrava, uma galeria; certamente, para abrigar lojas... É só o que se vê hoje em dia. Pessoas preocupadas em comprar, vender e comprar. No mundo em que vivemos, cada vez mais, as árvores têm que dar lugar ao universo do consumo. 

Os homens, em sua maioria, são assim. Preferem a frieza artificial de um ambiente inanimado e de concreto do que a beleza e a vivacidade da natureza. Nem mesmo se dão conta de que as plantas lhes concedem oxigênio e purificam o nosso ar, já tão carregado de impurezas. Pouquíssimas são as árvores que se podem contar na minha localidade. E olhem que moro num dos bairros nobres de Maceió.

Lembro-me de que uma vez, há muito tempo, chegaram a cortar a minha árvore, deixando-a quase no toco, mas ela queria muito viver e, contrariando o que muitos pensavam, ela cresceu novamente. Entretanto, agora é diferente. Certificaram-se de arrancar da terra todas as suas raízes. Homens não têm escrúpulos!, nem mesmo consigo próprios, quando o mote é sua inserção na roda incessante do capital.

Morreu calado o meu jambeiro; silencioso como sempre foi. Mas o vácuo, a dor fantasma que deixou na vista de minha varanda, e em minha alma, grita estridentemente em meu ser. 

domingo, 3 de julho de 2016

DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHA

                     Imagem: Google

A armação da tecnologia
Adlla Rijo

Era outono, tempo de uma reflexão ainda mais premente.
  • Filha, antes eu não tinha uma ideia formada sobre qual o sistema de governo mais justo para a humanidade, mas pensando bem sobre a natureza e seus recursos, acredito hoje que, para evitar uma catástrofe anunciada no nosso planeta, o melhor seria a adoção de um sistema com bases socialistas; afinal, o capitalismo sempre incentivará não só a desigualdade, mas também a produção e o consumo excessivos. Isso compromete cada vez mais o meio ambiente. Você não acha que as pessoas estão cada vez mais automatizadas?
  • Hã?! Quê? Não pai! - retrucou a mocinha longilínea, com ar de distração e os bugalhos vidrados no computador - , não acho que a melhor solução para o homem seja frear a evolução humana.
  • Evolução?! Você acha mesmo que estamos caminhando para uma evolução? O que penso, filha, é que a humanidade, além de toda a tralha artificial que carrega, se tornou uma verdadeira praga, gerando desequilíbrio e instabilidade a este planeta. Algo que desemboca numa catástrofe não pode ser chamado de evolução!
  • Mas quem disse que isso vai acontecer, pai?! São meras especulações!
  • Não filha, são constatações progressivas. O desequilíbrio é extremamente visível.
  • Ainda que seja, mas a preocupação com o meio ambiente e essa história de  sustentablidade é algo recente. Talvez haja muito exagero nessas previsões. Isso não havia antes!
  • Exatamente porque antes os danos não eram tão aparentes, ou não existiam na mesma proporção. De uns tempos pra cá, a derrocada tem se dado em progressão geométrica. Penso que a única maneira de evitar um cataclismo, o dilúvio final, é através da implantação de uma ditadura; porém uma ditadura bem intencionada, e o que é mais difícil: uma ditadura planetária! E isso, provavelmente, só vai acontecer quando a terra estiver na iminência de um estrago completo e irremediável, capaz de  comprometer definitivamente os recursos vitais ao ser humano! Sei que quando isso ocorrer não estaremos mais neste mundo, mas eu não pretendo continuar com esse discurso de que “o capitalismo é o melhor”, de que “não podemos frear a nossa evolução”. Pretendo, sim, ser parte ativa na busca de contenção dessa tragédia sem precedentes. E você filha? - Tendo como resposta o silêncio, o pai insistiu, discretamente contrariado: - Hei!, vê se larga esse computador, filha!... Responde!      
Alheia à pergunta, após obtê-la novamente do pai, manifestou-se:
  • Eu..., hum...pode ser... Mas, já tenho muita coisa pra pensar... Só se não for dar muito trabalho...
  • Sei...Querida, cadê seu namorado, nunca mais o vi por aqui? Vocês não se falam mais?
  • Se liga, pai?! Nos falamos todo dia pelo face. Você sabe que ele mora longe, e o trânsito de lá pra cá não é moleza. Você ainda não sabe que se pode namorar à distância?!
  • Filha, já são dez da manhã e você nem abriu ainda a janela do seu quarto! Nós não combinamos de ir à praia? Hoje é domingo, lembra? Puxa...o tempo parece fechado! Por favor, abra a janela pra gente ver se vai chover.
  • Ué!, pai, não precisa! - disse a jovenzinha impaciente e resoluta - Eu olho aqui pelo meu aplicativo... - E prosseguiu, mais desanimada do que espantada - Com mil demônios!, aqui diz que o dia vai ser de sol!
  • Então, vamos à praia?
  • Desculpa, pai, mas hoje eu tô mais a fim de ver outras paisagens...
  • É mesmo? E aonde quer ir?
  • A lugar nenhum, pai, vou ver outras paisagens aqui mesmo no meu notebook. Aliás, pode me deixar um pouquinho sossegada?! 
  Ao pai, desolado, restou apenas um desabafo; pura manifestação do inconformismo dos não totalmente enquadrados na armação: 
  •   Pelas barbas de Prometeu! Pra que nos concedeu o fogo divino?! É o apocalipse!!!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

                            Imagem: Google

Racionalidade em demasia, primeiro, embota; depois, sabota e, por fim, desbota. (Adlla Rijo)

quinta-feira, 16 de junho de 2016


As previsões desvelam o que ainda será,
a ciência e a filosofia se ocupam do que pode ser,
a história nos revela aquilo que já foi,
só a arte, simplesmente, é. (Adlla Rijo)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

DIVA


Diva,
deusa no nome,
dádiva dos meus sonhos,
sempre juntos,
corpo a corpo,
em cada novo amanhecer
[e somos tão diferentes].
Até a minha velhice
aproveito cada instante - 
tempo, tempo, sempre o tempo,
a estreitar nossos momentos.

(Marcondes Costa)

sexta-feira, 1 de abril de 2016


                                                   
                            Imagem: Wikimedia commons

Inúmeros homens almejam vida longa; uma quantidade infinitesimal se dispõe a assumir o ônus da jornada: paradoxo de quem agrega em seu Ser a sutileza da subjetividade e a brutalidade dos impulsos. (Adlla Rijo)

quarta-feira, 30 de março de 2016

DIÁLOGO ENTRE MÃE E FILHO

                                                                 IMAGEM: GOOGLE

UNIVERSOS PARALELOS

  • Mãe, sabia que existem estudiosos da mecânica quântica, como Robert Lanza, que defendem a existência de infinitos universos paralelos?
  • O que isso significa, filho? 
  • Pode significar muita coisa. Em primeiro lugar, pode ser que parte de sua alma esteja aqui neste universo e outra parte, em outro universo ao mesmo tempo; uma mesma alma em múltiplos universos. Mas pode significar também que poderíamos nascer, viver, morrer e depois renascer em outro universo, com o mesmo corpo, numa repetição incessante. 
  • Mas como? Estaríamos rodeados das mesmas pessoas? Viveríamos a mesma vida? E quem fosse morador de rua, seria morador de rua pela eternidade? - indagou a mãe perplexa.
  • Mais ou menos...Tudo ocorreria numa infinita repetição de múltiplas possibilidades. 
  • Não, meu filho, isso não faz o menor sentido! Será que você não está assistindo muito filme de ficção científica?
  • Mãe, estamos falando de ciência! - redarguiu o rapaz, com um semblante impaciente - Talvez nesse outro universo fôssemos a mesma pessoa, ou seja, a mesma alma, mas com outras escolhas.
  • Não. Isso é loucura! Além disso, não é justo.
  • É incrível, mãe, como descarta as possibilidades que assustam você. Quem disse que o mundo é justo? Já pensou que as coisas podem se dar aleatoriamente, sem critérios?
  • Não. Nessas condições, se Deus existe estaria brincando conosco! Isso não é possível... - repentinamente ponderou, arguindo - Pensando bem, filho, será que naquela época em que eu adoeci gravemente, e estive hospitalizada, eu morri e não sei?! Será que estou vivendo num universo paralelo ao que eu vivia antes?!
  • Não, mãe, isso não poderia ser pelo simples fato de que eu também estou neste universo e sei que você não morreu. Você se recuperou.
  • E se o que a gente vê ao nosso redor for apenas uma ilusão?! Nesse caso, até as pessoas seriam apenas criação da nossa mente!
  • Eita!, já vi que se você ficar especulando, dessa forma, o que é o universo, vai acabar enlouquecendo - seguiu-se à ironia um risinho torto.
  • Não filho, definitivamente, essa história de universos paralelos sucessivos não existe.
  • Como pode ter tanta certeza, mãe?
  • Porque a vida de muitas pessoas pode ser um suplício, e Deus não há de ser tão mau!
  • Mas mãe, talvez esse Deus que você conheça, na sua imensa bondade, seja o maior dos zombeteiros. 
A partir daí, a conversa que ia tão bem no que concerne à tentativa de desvendar os mistérios do Cosmos, não se sabe bem por que cargas-d’água, bruscamente, minguou: 

  • Já pra cama, menino!!!