domingo, 7 de agosto de 2016

MINHA BUSCA É PELO INTANGÍVEL

Adlla Rijo





Entre os meses de outubro de 2010 e janeiro de 2011, tive uma das experiências mais dolorosas de minha vida. Perdi minha mãe, Diva, que se foi pouco antes de completar seus sessenta e quatro anos. Uma mulher cujo nome lhe fazia jus, pois premiada com intensa beleza física e espiritual, impregnada de amor, generosidade e sabedoria.  Contudo, sua profissão desgastante - formou-se com vinte e quatro anos em medicina, e especializou-se em psiquiatria - e a rotina implacável de quem precisa cuidar de três filhos e ainda ser esposa e dona de casa impecável, assim como sua aceitação e adaptação aos conhecimentos adquiridos e vigentes em sua época, roubaram-lhe os anos vindouros na maturidade. Havia algo nela que lutava para se desvencilhar de todo esse encargo inclemente, mas é como se, embora altissonante, ela não pudesse escutar tal canto, advindo dos recantos mais profundos de sua alma. Quando veio escutar já era tarde. Nunca me esqueço do quanto ela repetia, quando já doente, que quando ela se fosse, eu empregasse parte do dinheiro da herança num apartamento pequeno (o que eu morava tinha uma dimensão que para ela, naquele momento, significava excesso). Aí ela já clamava por simplicidade. 

No decorrer de seu suplício, pois ficou internada por aproximadamente quatro meses no Hospital das Clinicas de São Paulo, os médicos reuniram-se conosco, seus filhos, para dizer que o caso de minha mãe não podia ser tratado. E por uma razão muito simples: eles fizeram todos os exames e nenhum deles foi capaz de detectar a doença de minha mãe. Sem diagnóstico não tem tratamento. Perplexa, pois racional como era eu, não me passava pela cabeça que a medicina, nos dias de hoje, podia não dar conta, ao menos, de desvendar determinada doença, indaguei aos médicos se havia outros casos como este. A resposta, que me surpreendeu, é que isso é muito mais comum do que se imagina.

Pouco antes de falecer, quando os médicos estavam tentando estancar um sangramento que vinha de um de seus órgãos internos, minha mãe ainda teve ânimo para  balbuciar algumas palavras: “Vocês falam tanto e não podem fazer nada por mim. Não sabem o que fazer”. 

Sua morte foi um divisor de águas em minha vida. Primeiro, é claro, tive que enfrentar o luto da perda, que durou mais de dois anos. Todos os dias ressoava vibrante a voz de minha mãe em meus ouvidos. Eu a ouvia nitidamente. Sua ausência doía como um corte dilacerante. Mas o tempo, como sempre, encarrega-se de fazer menos doloridas as feridas existenciais.

O resultado é que a partir daí minha busca é pelo intangível. Procurei desvencilhar-me do “normal”, do convencional, de tudo aquilo que captura e engessa. Nesse renascimento, transformei-me. Hoje, as plantas são as minhas maiores confidentes, os pássaros são os meus maiores ídolos, tanto que o canto tornou-se minha expressão por excelência, o sol transmudou-se em alimento e remédio, e a minha conversa com Deus se dá sem necessidade de palavras.

Ao invés de ler Freud, descubro a genialidade de Jung, ao invés da ânsia de viajar nos feriados, um novo mergulho na minha rotina, ao invés de fibras e vegetais, o sabor da carne oferecida por obra da natureza. Ao invés da moda, o conforto da vestimenta, sem descuidar do belo, afinal sou humana, e ainda por cima, mulher. Ao invés da badalação, o recolhimento.

Meu norte? A filosofia e a arte. Relíquias para quem almeja encaminhar-se  às alturas. De fato, minha mãe atingiu o auge da sabedoria durante seus dias últimos. A natureza revelou-lhe seu segredo: ama a simplicidade. Quisera eu que ela tivesse alcançado tal estado de espirito sem necessitar de tamanha provação.

Se olharmos de forma mais detida para tudo o que nos cerca, seremos alertados das inúmeras coisas neste mundo que fogem à nossa rasa compreensão. O amor, o fogo, a arte, os movimentos planetários, a nossa aparição na terra. Tudo isso a ciência tenta explicar, porém esbarra quando a questão é a da causa primeira. 

A música é outro fenômeno inexplicável, porém sem muito significado para aqueles que levam a vida pautados na pura razão. Cantar, e também compor, é um exercício de sensibilidade e loucura, que trabalha em prol da nossa saúde. Já se perguntaram por que há cantores e compositores que são tão reverenciados e amados? Pelo simples fato de que ela, a música, assim como as artes em geral, nos remete às nossas origens, à nossa relação com o lúdico, com o divino e com a natureza. As previsões desvelam o que ainda será, a ciência e a filosofia se ocupam do que pode ser, a história nos revela aquilo que já foi, só a arte, simplesmente, é.

Não significa dizer que devemos nos despir de toda a racionalidade. Ela é crucial em determinadas circunstâncias. É preciso, contudo, ter cuidado para não cair na sua armadilha: a promessa constante de uma vida segura. O resgate, em casos como esse, é lento, doloroso e, por vezes, sem sucesso. Racionalidade em demasia, primeiro, embota; depois, sabota e, por fim, desbota.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

SINGELEZA

                           Imagem: Google


As plantas sempre foram minhas fiéis companheiras.
Com elas troco confidências desde minha infância.
Por vezes, na singeleza e mesmo na fragilidade de seu ser, 
enxergo mais sabedoria e obtenho mais respostas 
do que na suposta autonomia dos humanos. (Adlla Rijo)
                          Imagem: Google


Tão urgente quanto ser feliz é não alhear-se, por longo tempo, das tristezas da vida; afinal, as vicissitudes nos espreitam, como caçadoras implacáveis, precursoras que são daquela mais temível: a misteriosa passagem redimidora. (Adlla Rijo)



Prefiro os loucos, os desconfiados, os rebeldes, os alucinados aos normais, adaptados, enquadrados e horrendamente engomados. Por quê?! Estes são nada mais do que máscaras distorcidas e petrificadas. Feiúra e frieza reunidas resultam numa combinação pavorosa. (Adlla Rijo)

sábado, 23 de julho de 2016

O FOGO

Adlla Rijo




O que é isso?! 
Essa bola de fogo que nos concede energia e vida?
Sempre achei que o fogo fosse coisa do inferno; 
e o demônio, o seu manipulador.
Hoje, ainda ofuscada de dúvidas,
dou-me conta de que
 o fogo, embora divino, 
precisa estar à distância dos homens. 
Assim é o sol, nossa estrela vivificante.

sábado, 9 de julho de 2016

MEU JAMBEIRO SE FOI

Adlla Rijo





Quando acordei, meu jambeiro não estava mais lá. Digo meu porque, embora ficasse no interior da propriedade de outra pessoa, em frente ao meu edifício, sua visão era uma das primeiras que tinha ao acordar, quando me dirigia ao terraço para agradecer por mais um dia. Desde que aqui vim morar, há vinte e três anos, via-o e reverenciava-o todos os dias.

Ele era lindo! Verdejante, frondoso, majestoso mesmo! E estava lá todos os dias para me dizer, ao lado do sol, que o dia começou. Quando eu era menina, e dormia na casa da minha avó Beatriz, era o galo quem me acordava com seu canto, mas naquela época as pessoas criavam galos e galinhas no quintal. Hoje o som que podemos ouvir dos nossos prédios são a barulheira dos motores de ônibus e de carros apressados e fumarentos.

Ao me dar conta de sua ausência, quando levantei, a primeira reação que tive foi chorar convulsivamente. Chorar a sua falta, o seu “não mais existir”, a sua dor solitária. Em seguida veio-me a revolta por sua extirpação. Ainda mais porque considero que uma planta desse porte, com tanta história pra contar, não tem dono. Elas podem cativar qualquer um que cultive o amor. E tudo isso para construir, no terreno onde ela se encontrava, uma galeria; certamente, para abrigar lojas... É só o que se vê hoje em dia. Pessoas preocupadas em comprar, vender e comprar. No mundo em que vivemos, cada vez mais, as árvores têm que dar lugar ao universo do consumo. 

Os homens, em sua maioria, são assim. Preferem a frieza artificial de um ambiente inanimado e de concreto do que a beleza e a vivacidade da natureza. Nem mesmo se dão conta de que as plantas lhes concedem oxigênio e purificam o nosso ar, já tão carregado de impurezas. Pouquíssimas são as árvores que se podem contar na minha localidade. E olhem que moro num dos bairros nobres de Maceió.

Lembro-me de que uma vez, há muito tempo, chegaram a cortar a minha árvore, deixando-a quase no toco, mas ela queria muito viver e, contrariando o que muitos pensavam, ela cresceu novamente. Entretanto, agora é diferente. Certificaram-se de arrancar da terra todas as suas raízes. Homens não têm escrúpulos!, nem mesmo consigo próprios, quando o mote é sua inserção na roda incessante do capital.

Morreu calado o meu jambeiro; silencioso como sempre foi. Mas o vácuo, a dor fantasma que deixou na vista de minha varanda, e em minha alma, grita estridentemente em meu ser. 

domingo, 3 de julho de 2016

DIÁLOGO ENTRE PAI E FILHA

                     Imagem: Google

A armação da tecnologia
Adlla Rijo

Era outono, tempo de uma reflexão ainda mais premente.
  • Filha, antes eu não tinha uma ideia formada sobre qual o sistema de governo mais justo para a humanidade, mas pensando bem sobre a natureza e seus recursos, acredito hoje que, para evitar uma catástrofe anunciada no nosso planeta, o melhor seria a adoção de um sistema com bases socialistas; afinal, o capitalismo sempre incentivará não só a desigualdade, mas também a produção e o consumo excessivos. Isso compromete cada vez mais o meio ambiente. Você não acha que as pessoas estão cada vez mais automatizadas?
  • Hã?! Quê? Não pai! - retrucou a mocinha longilínea, com ar de distração e os bugalhos vidrados no computador - , não acho que a melhor solução para o homem seja frear a evolução humana.
  • Evolução?! Você acha mesmo que estamos caminhando para uma evolução? O que penso, filha, é que a humanidade, além de toda a tralha artificial que carrega, se tornou uma verdadeira praga, gerando desequilíbrio e instabilidade a este planeta. Algo que desemboca numa catástrofe não pode ser chamado de evolução!
  • Mas quem disse que isso vai acontecer, pai?! São meras especulações!
  • Não filha, são constatações progressivas. O desequilíbrio é extremamente visível.
  • Ainda que seja, mas a preocupação com o meio ambiente e essa história de  sustentablidade é algo recente. Talvez haja muito exagero nessas previsões. Isso não havia antes!
  • Exatamente porque antes os danos não eram tão aparentes, ou não existiam na mesma proporção. De uns tempos pra cá, a derrocada tem se dado em progressão geométrica. Penso que a única maneira de evitar um cataclismo, o dilúvio final, é através da implantação de uma ditadura; porém uma ditadura bem intencionada, e o que é mais difícil: uma ditadura planetária! E isso, provavelmente, só vai acontecer quando a terra estiver na iminência de um estrago completo e irremediável, capaz de  comprometer definitivamente os recursos vitais ao ser humano! Sei que quando isso ocorrer não estaremos mais neste mundo, mas eu não pretendo continuar com esse discurso de que “o capitalismo é o melhor”, de que “não podemos frear a nossa evolução”. Pretendo, sim, ser parte ativa na busca de contenção dessa tragédia sem precedentes. E você filha? - Tendo como resposta o silêncio, o pai insistiu, discretamente contrariado: - Hei!, vê se larga esse computador, filha!... Responde!      
Alheia à pergunta, após obtê-la novamente do pai, manifestou-se:
  • Eu..., hum...pode ser... Mas, já tenho muita coisa pra pensar... Só se não for dar muito trabalho...
  • Sei...Querida, cadê seu namorado, nunca mais o vi por aqui? Vocês não se falam mais?
  • Se liga, pai?! Nos falamos todo dia pelo face. Você sabe que ele mora longe, e o trânsito de lá pra cá não é moleza. Você ainda não sabe que se pode namorar à distância?!
  • Filha, já são dez da manhã e você nem abriu ainda a janela do seu quarto! Nós não combinamos de ir à praia? Hoje é domingo, lembra? Puxa...o tempo parece fechado! Por favor, abra a janela pra gente ver se vai chover.
  • Ué!, pai, não precisa! - disse a jovenzinha impaciente e resoluta - Eu olho aqui pelo meu aplicativo... - E prosseguiu, mais desanimada do que espantada - Com mil demônios!, aqui diz que o dia vai ser de sol!
  • Então, vamos à praia?
  • Desculpa, pai, mas hoje eu tô mais a fim de ver outras paisagens...
  • É mesmo? E aonde quer ir?
  • A lugar nenhum, pai, vou ver outras paisagens aqui mesmo no meu notebook. Aliás, pode me deixar um pouquinho sossegada?! 
  Ao pai, desolado, restou apenas um desabafo; pura manifestação do inconformismo dos não totalmente enquadrados na armação: 
  •   Pelas barbas de Prometeu! Pra que nos concedeu o fogo divino?! É o apocalipse!!!