quarta-feira, 18 de outubro de 2017

BULLYING















Fui criança-adulta. Hoje sou adulta-criança.
Tristeza? Recebi já na infância,
assim como o deslumbre e a mágica do belo.
O que me salva são as plantas e os bichos,
que sempre sussurraram na minha alma a verdade do mundo,
apesar da opressão dos homens, grandes e pequenos, com suas línguas afiadas sempre à minha volta. Que culpa tenho eu se os leões reinam, os gatos são esquivos e as cobras rastejam?Precocemente caí de paraquedas num ninho de incoerências, num vale de enganos, numa moita de sedução oral. Somente agora percebi o invólucro lamacento que me vendava o amor-próprio, abatia meu corpo e sufocava meu espírito. Água, luz, areia e distância são os elementos de que sempre necessitei para tratar com afago esta mulher-menina tão negligenciada outrora. 


Adlla Rijo

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

VERGONHA DESTE MUNDO

                                          Imagem: Google


Adlla Rijo


Contemplando-o em tal postura, 
com ares de menino-Deus, 
sentando no colo da tragédia
e mais ferido do que eu,
tenho vergonha deste mundo.

Pergunto a ti, meu menino:
onde está teu estilingue, 
tua bola e a bicicleta? 
Sumiram no rastro da guerra?
Tenho vergonha deste mundo.

Por ver tão pura criança,
a quem se resolveu dar vida,
experimentar tamanho desgosto,
envolto em famigeradas feridas,
tenho vergonha deste mundo.

Em teu semblante manchado
de dor e reprovação, 
ofereces-nos, sem palavras,
um imponente recado:
tenham vergonha deste mundo.

Não aprenderam, ainda,
homens, após tão longo percurso,
o que são nossas crianças?!
E é por tal comportamento,
por tal desprezo profundo
que grito para toda gente:
tenho vergonha deste mundo!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

MÃE, QUE SAUDADE DE VOCÊ!


Desenho de Melissa Calazans




Adlla Rijo


Saudade do que podia ter sido e não foi,
do que foi sem nunca ter sido.
Quantas vezes desejei 
dizer-te do meu amor por ti
e quantas calei por estúpida timidez !
Amo-te. Amo-te. Amo-te. 
Eis o que queria tanto 
dizer-te e não disse, 
enredada na embromadora tolice
do sisudo entesourador de sentimentos.
Ah! Se eu ainda pudesse beijar-te, minha mãe,
beijar-te-ia com tanta força e avidez,
para que tu visses, de uma única vez,
o tanto de amor que guardo no peito meu.
Perdoa, minha mãe amada,
esta criança contida e tão carente, 
que mal sabia revelar-te
todo o amor que sente,
e vive a chorar baixinho de saudade.

TARTARUGUINHA DA MINHA INFÂNCIA



              Adlla Rijo


Tartaruguinha da minha infância,
como penei ao constatar tua partida !
Como chorei ao ver-me só,
nesta apressada vida, 
sem ter teu passo 
para compassar meu coração !

Tartaruguinha da minha infância,
como desejei, um dia, 
encontrar-te novamente
na imensa brandura 
do teu andar cadente,
na eterna sapiência
da tua lentidão.

Tartaruguinha da minha infância,
nem tens consciência do bem
que me fizeste, 
do incalculável amor
que tu me deste,
da alforria concedida 
sem qualquer reparação.


Tartaruguinha da minha infância,
ajudaste-me a amar
o ritmo vagaroso,
a fugir de todo 
açodamento enganoso,
a apartar-me, enfim, 
da inebriante afobação !

domingo, 7 de agosto de 2016

SER POETA



                                             


Declarar-se poeta, qualquer um pode fazê-lo, pois o manejo no emprego das palavras, assim como  toda técnica, é algo alcançável por todo aquele que, tendo um mínimo de sensibilidade, a isso se dedique; mas ser poeta, legitimamente, é para poucos, já que tal denominação só se aplica, com justiça, àquele que sabe fazer poesia da sua própria vida e daqueles que a povoam. Isso mesmo, você pode ser poeta, tendo passado pela vida, sem nunca ter escrito um único poema!

(Adlla Rijo)

DOENÇA

                                         Imagem: Google


Infelicidade,
contrariedade,
artificialidade,
abandono,
materializados e
distribuídos
no seio
dos desfavorecidos. 

(Adlla Rijo)

INCONSCIENTE



                                                                                          


Força indomável,
verdade incontestável,
pulso inarredável.
Se não através dos sonhos,
através da arte,
se não através da arte,
através da vida,
se não através da vida,
através do delírio. 
A imaginação não pode ser aprisionada,
mais fluida que o ar,
sua escapatória nem necessita de orifícios.
Mais límpida que as águas cristalinas,
não se contamina.
Infindável,
inapreensível,
Indisciplinável,
É Deus!

(Adlla Rijo)